Desde o verde Minho por terras de pescadores

O primeiro dia do Lés-a-Lés ligou Felgueiras á Figueira da Foz.

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Eram precisamente 6h00 da madrugada, ainda fresca, e já Felgueiras aquecia com o arranque da 1ª das 907 equipas inscritas no 21º Portugal de Lés, em animada procissão de partidas, à cadência de 6 motos por minuto, que se prolongou para lá das 11 horas, já o sol ia alto, prometendo um dia bem quente. Jornada que se confirmou de excelência, a começar pelo tempo, com temperaturas de 20º na ligação até à Figueira da Foz e céu muito claro, sem qualquer nuvem, excelente para a prática da modalidade, e sempre com o Oceano Atlântico como companhia. Depois, claro está, da ligação até à orla marítima porque, como se sabe, Felgueiras fica a uns quilómetros do mar.

Passeio matinal através do verdejante Minho, com surpreendentes estradas que a Federação de Motociclismo de Portugal escolheu para reforçar toque turístico do evento que, ano após ano, desde 1999, junta centenas e depois milhares de motociclistas na ligação entre norte e sul do País. E com paragens em Oásis de diversão acrescida e reconforto gastronómico, solidariedade reforçada e novas amizades. Caravana com mais de 1900 motos, transportando 2115 motociclistas, incluindo mais de duas centenas de estrangeiros. De Espanha chegou o maior contingente – 159 participantes – de uma ‘babel’ composta por norte-americanos, canadianos, ucranianos, alemães, húngaros, suiços, ingleses, franceses, italianos, gregos, croatas e belgas.

Pequeno almoço real em S. Torcato

Da Capital do Calçado rumou a norte a enorme caravana internacional, aproveitando as paragens no santuário de São Torcato, no castelo de Póvoa de Lanhoso ou na praia fluvial de Adaúfe, para comer o primeiro de vários reforços ao pequeno-almoço entregue pela organização em Felgueiras. Momentos para digerir – além de requintada lista de doçaria, sanduíches, sumos, enchidos, café, e muitas outras ao nivel de hotel de 5 estrelas – as primeiras emoções de uma viagem sempre ladeada por paisagens verdejantes, da descida ao Rio Vizela à sinuosa subida a Guimarães. Mas passando ao lado da histórica cidade em direcção a S. Torcato e ao enorme templo cuja demora na construção justifica a profusão de estilos, do neoclássico, gótico, renascentista e romântico. Espaço onde o MC Conquistadores de Guimarães montou espectacular controlo de passagem, superando mesmo o elevado nível da produção apresentada em 2018 no castelo de Montalegre. Depois da uma boa mão-cheia de agradáveis curvinhas, a primeira grande surpresa do dia levou muitos participantes a esfregar os olhos de espanto, tal era o ‘teatro’ armado pelos Conquistadores. Estariam bem acordados? Um controlo que, sem exagero e antes a pecar por defeito, fica na história do Lés-a-Lés, com príncipes e princesas, serviçais e feirantes, ciganos e bispos, emigrantes preparados para fugir ‘a salto’ da miséria que grassava em Portugal na década de 1960, um quarto de dormir decorado a preceito segundo os cânones de outros tempos, com toda a família em pijama e até o penico. E sem esquecer o temível Zé do Telhado que, armado de imponente pistolão, ditava leis para um estacionamento perfeito das muitas motos que ali se acumularam.

Terra de fortificação é também a Póvoa de Lanhoso, assente no maior monólito da Península Ibérica, com a pequena vila minhota famosa também por ser o berço da Revolta da Maria da Fonte, quando, em 1846, os populares, liderados por desassombrada mulher, se insurgiram contra o governo que, alegando razões de saúde pública, proibiu a sepultura de mais mortos dentro da igrejas. Mulher de armas como as muitas minhotas que, durante décadas, impulsionaram a indústria têxtil que deu novo significado ao Vale do Ave. Rio que, nascendo na Serra da Cabreira, foi acompanhado pelos participantes em boa parte dos 94 quilómetros de extensão, com direito a passagem pela foz, em Vila do Conde.

Mas, enquanto não chegavam as ondas do oceano, tempo para apreciar as importantes linhas de água como o Rio Homem, que apesar de curto de 39 quilómetros desde a nascente na Serra do Gerês, bem perto da fronteira, e de represado na Barragem de Vilarinho das Furnas, tem forte caudal ou não fosse oriundo da zona mais pluviosa de Portugal. Rio que é um dos três que atravessa o enorme concelho de Vila Verde (os outros são o Cávado e o Neiva), onde não falta montanha, vales de verdejantes veigas e muita… indústria. Claro que, em Minho de muitas surpresas, um ponto haveria de merecer exclamações de espanto, a Praia Fluvial do Faial, em Prado, onde a CM de Vila Verde, com o apoio do Moto Clube do Prado montou o primeiro Oásis da etapa, com vista para a ponte românica mandada construir por Filipe I em 1615, e muitas vezes destruída pela violência do Cávado, antes de serem instaladas 8 barragens na sua bacia hidrográfica. E com o ‘road-book’ a indicar o caminho de Panque, mais curvas, paralelo e estradinhas reviradas entre muitos campos agrícolas, obrigando a acrescido trabalho de condução. Mas que não intimidou a mais jovem condutora, Sofia Baqué, que aos 18 anos concretizou desejada estreia aos comandos depois de dois anos de experiênca à ‘pendura’ do pai. 

Ciclistas e outros campeões de duas rodas

Verdura e muitos rios nesta fase inicial do 21º Portugal de Lés-a-Lés, como o Neiva, de enorme beleza ao longos dos seus 45 quilómetros de extensão e onde existem duas pontes romanas e muitas outras seculares além mais de 150 engenhos, e que o pelotão haveria de atravessar por seis vezes. Até Tregosa onde os Moto Galos de Barcelos tinham preparado mais uma surpresa antes da parte decisiva na aproximação ao mar com a estreante passagem no concelho de Barroselas que tem a particularidade de ser presidida pelo ex-ciclista Rui Sousa, verdadeiro campeão de popularidade a pedir meças a Cândido Barbosa, participante habitual do Lés-a-Lés.

Mas seria Esposende a marcar a mudança de cenário na tirada inaugural da maratona mototurística, deixando para trás o Verde Minho e passando a ter o Atlântico como companhia, entrando no concelho por Forjães, S. Paio de Antas, terra do campeão Nacional de Velocidade em 1988 e 1991, Alex Laranjeira, e Vila Chã, vendo pela primeira vez o mar em Abelheira. E que vista! Deslumbrante! Aliás, não podia ser mais espetacular o primeiro contacto com o oceano, passando ainda por Marinhas rumo ao Oásis da CM de Esposende, fortemente apoiado pelo Grupo Motard da Guia, no espaço Pé no Rio onde a caravana apreciou a moto da equipa Suzuki Shell com que Laranjeira correu no Mundial de Endurance e ganhou as 24 Horas de Spa-Francorchamps em 1999, tendo lutado pelo título mundial até à última prova da temporada. Máquina que, como muitas outras, pôde ser apreciada nas duas edições do Salão de Motos de Competição de Esposende que o próprio piloto quer continuar a organizar de forma entusiasmada.

Junto ao mar, sem peixe mas com… a nortada

Atravessado o Cávado, seguiu-se Fão e Ofir, os moinhos da Apúlia e o direito a entrar na lota e apreciar peixe fresco… apesar de ser segunda feira e ainda por cima feriado. Mau dia, dizem as varinas. Por isso, tempo apenas para mais umas fotos que o peixe por lá ficou, rumando a Vila do Conde de forma mais despachada, fugindo às belíssimas e pacatas estradinhas entre as veigas bem como à marginal da Póvoa de Varzim, ganhando assim tempo que a Figueira da Foz ainda estava longe. Das Caxinas, de fama assente na Selecção Nacional de futebol, sendo a freguesia que mais jogadores cedeu, de André a Bruno Alves, passando por Paulinho Santos, Hélder Postiga ou Fábio Coentrão, até à Marginal de Vila do Conde, com circuito onde brilharam nomes como Jorge Viegas, tendo o fundador da Federação de Motociclismo de Portugal e actual Presidente da Federação Internacional de Motociclismo ali competido por diversas ocasiões. Vedeta foi também a nau quinhentista, excepcionalmente aberta pela CM de Vila do Conde para que os viajantes dos tempos modernos pudessem perceber como era difícil, trágico até, atravessar os mares na época dos Descobrimentos.

Atravessada a foz do Rio Ave, sob a vigilância do imponente Convento de Santa Clara, passagem pela Reserva Ornitológica do Mindelo, a primeira área protegida criada em Portugal, em 1957, seguindo-se por Leça da Palmeira, apreciando a original Piscina das Marés, desenha por Siza Vieira e Monumento Nacional desde 2011, ano em que foi inaugurado o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões. Reforço importante para o turismo naquele que é o segundo maior porto artificial do País, acolhendo mais de 3000 navios e 14 milhões de toneladas de mercadorias por ano, a seguir ao de Sines, a visitar na última etapa deste Lés-a-Lés. Além da 4ª maior ponte móvel do Mundo que, atravessando o Rio Leça, levou a caravana a Matosinhos, terra de pescadores e futebolistas, restaurantes especializados em peixe, surfistas, conservas e tudo o mais relacionado com o mar. Mais um saltinho e a entrada no Porto, junto à frente marítima do Parque da Cidade, o maior espaço verde do País em meio urbano, com 83 hectares de área, com 10 quilómetros de caminhos, vários lagos e pequenos bosques.

Da elegância da Foz à faina da Afurada

Sempre com o mar ao lado, travessia da elegante Avenida Brasil, entre o Castelo do Queijo e a Fortaleza de S. João da Foz, apreciando o local onde desagua o rio de maior caudal da Península Ibérica. O Douro, atravessado pela Ponte da Arrábida, criação genial de Edgar Cardoso que, em 1963, tinha o maior arco em betão armado a nível mundial. Repleta de turistas – que torna a visita à belíssima Ribeira quase impossível com tão pouco tempo – rápida travessia para Vila Nova de Gaia através da Ponte Luís I, inaugurada em 1886, com passagem pelas ruelas estreitas e centenários armazéns de Vinho do Porto. Zona histórica de menos à vontade para… uma histórica. É que a Jawa 250 de 1952, a mais antiga moto presente no evento, ‘a menina dos olhos entre as várias clássicas lá por casa.’ que Hélder Alves trouxe pela 5ª vez à maior maratona mototurística da Europa, não gosta de semáforos, pára-arranca no trânsito ou subidas muito íngremes porque sobem-lhe logo uns calores à cabeça… do motor!

Sem vinho ou outras bebidas alcoólicas, naturalmente proibidas durante o evento, surpresa na chegada à Marina da Afurada, simpático e versátil espaço onde o conhecido concessionário Antero, dos Carvalhos proporcionou muito agradável Oásis, povoado por muitos ‘pescadores’ do Moto Clube do Porto. Mais divertidos e de estômago reconfortado, foi partindo o pelotão, ao longo de mais de 5 horas, pela marginal marítima, passando pelas praias da Madalena, Valadares, Francelos, Miramar e a curiosa Capela do Senhor da Pedra, erigida em 1686 dentro do mar, Aguda e o seu Parque das Dunas, criado em 1997 pelo Parque Biológico de Gaia, e Granja, local onde o casario evidencia a importância das famílias que ali passavam férias.

Mais eclética, a cidade de Espinho – onde, à imagem de Nova Iorque, as ruas não têm nomes mas sim números – foi contornada para evitar a estreita e apinhada marginal rumo à estrada florestal de Esmoriz, Maceda e Cortegaça, passando pela pista militar sem vislumbrar os bem escondidos hangares, enterrados no solo. No mais costeiro Lés-a-Lés de sempre, um dos ex-libris do evento apoiado pela BMW, BP, Dunlop, NEXX, Touratech e Agência Abreu, foi a Ria de Aveiro, estuário com 41 km de comprimento, juntando as águas dos rios Vouga, Antuã, Boco e Fontão. A grande biodiversidade tornam-na num local de imenso interesse ao longo de todo o ano, sendo possível apreciar flamingos no inverno, além de várias espécies de garças, guarda-rios e muitas aves limícolas.  Mas há mais para ver, do Cais da Béstida ao de Pardelhas, passando por Mamaparda ou pela Cicloria, com descoberta através de bicicletas gratuitas proporcionadas pela CM da Murtosa. Que, por isso mesmo, aqui instalou um Oásis, no Cais do Bico, com apoio do Rancho Folclórico As Andorinhas de S. Silvestre, do Bunheiro e onde os Moto Clubes de Estarreja e Murtosa foram imprescindíveis na organização do estacionamento de tantas motos. E no controlo de mais um ponto de passagem, o 6º dos 18 furos previstos na tarjeta comprovando a realização de todo o percurso entre Felgueiras e Lagos.

Retas e pinhais até ao prémio final

Passagem pela Murtosa, o concelho mais plano de Portugal, que prosseguiu pelos campos de Salreu e de Canelas, com caminhos a ladear esteiros, sombreados por salgueiros e carvalhos. Zona verde e plana onde foi possível ver as primeiras cegonha-branca deste Lés-a-Lés, abordando Aveiro de forma bem diferente da habitual e pouco interessante entrada pela A25, através de um caminho em terra pelas margens do Rio Vouga mas sem escapar ao aroma proveniente da fábrica da Portucel que anuncia a proximidade de Cacia. Que rapidamente foi deixado para trás, ganhando ar bem mais respirável ao chegar ao farol mais alto de Portugal, o da Costa Nova com os seus 62 metros de altura. Ali bem perto, em zona ampla e muito agradável, ainda antes da bonita e fotogénica povoação balnear do concelho de Ílhavo, onde os palheiros, armazéns de sal e de utensílios de pesca, deram origem a casas de habitação de cores fortes, espaço para o Oásis da NEXX, mostrando a completa e muito moderna gama de capacetes incluindo o best-seller X.Wed 2 e o novíssimo modular X.Vilitur. Para melhor refletir na aquisição de novo capacete, nada como a viagem pela Vagueira e Praia de Mira, com passagem pela sensível Lagoa de Mira, habitat de água doce, e por estradas florestais que são autêntica… desgraça. Do pior que se viu em muitos anos de Lés-a-Lés mas impossíveis de evitar. Obrigatório rolar muito devagar para evitar as muitas armadilhas de um asfalto mais que irregular emoldurados por pinheiros, muitos deles ardidos, e acácias, aconselhando a fuga pela também pouco interessante N109. Aconselhada, mas só a quem tinha tempo e fôlego, a escapa à praia de Palheiros da Tocha, no concelho de Cantanhede, com interessante arquitetura tradicional.

O maior e mais desejado areal

Já com a chegada à Figueira da Foz no pensamento, tempo para desfrutar das vistas de um dos areais mais longos de Portugal, com 53 quilómetros, do Rio Vouga ao Cabo Mondego, apenas interrompido ao de leve por algumas pequenas ribeiras. Que seria cenário da entrada na cidade que acolheu o final desta primeira etapa não fosse o facto desta estrada, macabramente conhecida como ‘enforca-cães’ ter sido fechada ao trânsito poucas semanas antes obrigando a organização, com apoio do Moto Clube de Coimbra, a optar pela Serra da Boa Viagem, obrigada a ‘inventar’ face à desolação lançada pelo Furacão Leslie, que a destruiu a 13 de Outubro de 2018. Mas valeu pela paragem junto das ‘pimpinetes’ ululantes do MC Coimbra e no Miradouro da Serra da Boa Viagem que, apesar dos apenas 261 metros de altitude, permite apreciar a Figueira da Foz, o Oceano Atlântico em toda a sua magnitude e o imenso areal de Buarcos. Derradeiras recordações de um dia muito exigente, para o físico como para as motos, efeitos minimizados pelos terapeutas e massagistas do Instituto de Medicina Tradicional e pelos mecânicos da equipa que acompanha a caravana do Lés-a-Lés. E com tudo preparada, nada como um bom descanso porque a 2ª etapa, com 345 km até Arruda dos Vinhos promete mais emoções, com partidas desde as 6 horas para uma viagem que vai durar cerca de 10 horas e 20 minutos. E com passagem pela Praia de Vieira, S. Pedro de Muel (a partir das 7h00), Nazaré (7h50), S. Martinho do Porto (9h00), praias de Porto Novo (11h00), de Santa Cruz (11h10), da Ericeira e das Maçãs (12h35). O Cabo da Roca (às 12h50) ou Cascais (13h50) são outros locais com paragem antes da travessia de Lisboa, entre a Marginal e a Expo, sempre junto ao rio Tejo, atravessando depois o rio Trancão em direção à Arruda dos Vinhos onde os primeiros começarão a chegar às 16h30h.