Festival mototurístico junto ao mar

1345

O desejo vinha de longa data, mas, por um motivo ou outro, só foi possível concretizá-lo duas décadas depois do nascimento do Portugal de Lés-a-Lés. Fazer a travessia do mapa continental junto à costa atlântica, honrando país de aventureiros navegadores e audazes pescadores, foi aposta ousada da Federação de Motociclismo de Portugal que gizou ligação de Felgueiras a Lagos com forte ligação marítima. E, mesmo sabendo as dificuldades que enfrentaria, pela maior densidade populacional e congestionamentos na região litoral, como pelas datas possíveis para a 21ª edição da maior maratona mototurística da Europa, aceitou o desafio. Que concluiu com elevada distinção, nota máxima comprovada pelo ambiente de festa na chegada à cidade algarvia bem como os rasgados sorrisos nas paragens na Figueira da Foz e Arruda dos Vinhos, palco do final das etapas anteriores.

Aposta claramente ganha pela Federação de Motociclismo de Portugal que «apesar de saber de antemão as dificuldades acrescidas que a decisão de realizar o Lés-a-Lés em alguns dias da semana iria criar, tanto mais que atravessou zonas densamente povoadas, provou-se que era possível fazê-lo. E com sucesso». Para António Manuel Francisco, presidente da Comissão de Mototurismo da FMP, ‘…esta foi mesmo a hipótese mais viável de concretizar um desejo antigo de atravessar o País o mais junto possível à costa. Não foi fácil porque implicava atravessar as duas maiores cidades do País e muitas zonas balneares, mas era uma experiência que a FMP queria oferecer aos participantes, porque no litoral há muito para descobrir.’ Quatro dias de características bem diferenciadas, da verdura do Minho no Passeio de Abertura e arranque da primeira etapa, à travessia complicada do Grande Porto no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, ao mais recôndito Algarve passando bem perto de algumas das mais belas praias da Costa Alentejana e Vicentina. E sempre com monumentos históricos e outros pontos de interesse a juntar a paisagens de beleza ímpar e à alegria de receber os forasteiros que só o povo português consegue exprimir de forma tão genuína.

Mas, além do mais marítimo de sempre, este Lés-a-Lés que teve ‘o maior ‘road-book’ de sempre, com 71 páginas de notas e indicações, e que foi o mais complicado de delinear ao longo destes 21 anos.’ como reconheceu Ernesto Brochado, responsável pelo percurso, vai ficar na memória dos participantes por muitos outros motivos. A começar pela enorme surpresa que foi o prólogo em Felgueiras, desfazendo o mito de uma zona única e exclusivamente voltada para a indústria, muito mais do que ‘simples’ Capital do Calçado, ao mostrar recantos de enorme beleza natural, igrejas e pontes carregadas de história. Espanto generalizado que continuaria na ligação até à Figueira da Foz, começando por deliciosas estradas minhotas, sempre rodeadas de verdes paisagens, e com a espectacular descida rumo a Esposende, com os moinhos da Abelheira a enquadrarem o espectacular primeiro contacto com o Atlântico. Vistas que ficarão, seguramente, na memória na equipa com mais presenças, Os Gaiteiros (Nélson Grilo e Luís Simões) que apenas faltaram em 2009, devido a um acidente.

Memórias guardadas pelo corajoso Filipe Nascimento, paraplégico desde o ano em que o Lés-a-Lés nasceu, mas que completou a quinta participação na Vespa com side-car decorada com o número 1, ou Paulo Mendes, com o nº 907 na BMW 1200, a última da equipa da lista. Ele que já foi o primeiro na estrada ao ‘apadrinhar’ a estreias dos filhos Tiago e Nuno na grande aventura e que agora é, juntamente com Ângelo Moura, por sinal presidente da Câmara Municipal de Lamego, Luís Santos, de Mirandela, e Luís Simão, um dos quatro totalistas das 21 edições, este com particularidade de ter participado sempre com a mesmíssima Yamaha Virago 535! Experiência acumulada de 21.192 quilómetros ao longo de 21 anos no evento, bem ao contrário das estreantes Sofia Baqué, a mais jovem das 185 condutoras presentes, com 18 anos, e da jovial espanhola Merce Puig que, aos 63 anos, conduziu a sua BMW R1200 GS, máquina com menos de um ano de utilização que já contabiliza 50 mil quilómetros! Pelotão com mais de 2100 pessoas em 1900 motos, cada vez mais bonito e jovial, com muitas máquinas bem recentes, com matrículas de 2019, até à Jawa 250 Peralt de 1952, uma das que mais sofreram no pára-arranca ao atravessar o Grande Porto. Travessia que, de tão tranquilamente lenta, deu para apreciar a impressionante obra de betão armado que é a Ponte da Arrábida, ou cada pedra da Alfândega e da cada vez mais renovada Ribeira do Porto.

Em ano de muitas estreias que teve na passagem por Lisboa um dos pontos altos de edição marítima, nota para a entusiasmante receção aos participantes no Cabo da Roca, pelos Motards do Ocidente, tal como o espetacular controlo a cargo dos Conquistadores de Guimarães, em S. Torcato, ou à festa promovida em St.º Estevão e que além da iniciação ao toureio promoveu – e de que maneira!… – a gastronomia local. Aos muitos moto clubes que apoiaram o evento da FMP, nota para as presenças do MC Porto, com quatro divertidos controlos, Prado, Moto Galos de Barcelos, Guia, Estarreja, Coimbra, Marinha Grande, Torres Vedras, Arruda dos Vinhos, Almansor, Albufeira e Lagos. Apoio imprescindível tal como dos patrocinadores BMW, BP, NEXX, Abreu e Dunlop, além da Antero, Yamaha, Honda e Touratech que brindaram a caravana com colhedores Oásis, onde foi possível descansar, hidratar e comer.

Tratar do corpo porque houve, durante quatro dias, muito para ver, dos inúmeros faróis às defesas das Linhas de Torres, do ponto mais ocidental da Europa, no Cabo da Roca, ao cantinho sudoeste do Velho Continente, no Cabo de S. Vicente. Apreciados por milhares de portugueses e pelos mais de 200 estrangeiros que integraram a caravana, do grande contingente oriundo de Espanha (159 motociclistas) até ao primeiro participante vindo da Holanda, além de aventureiros de França, Itália, Suíça, Alemanha, Ucrânia, Hungria, Grécia, Inglaterra, Bélgica, Croácia, e ainda de mais longe, desde os Estados Unidos, Canadá, Angola ou Moçambique. E que contavam com políticos, desde o secretário de Estado do Desporto e Juventude, João Paulo Rebelo, ao ex-presidente da CM de Lisboa, Carmona Rodrigues, aos ex-deputados e ‘habitués’ destas andanças, Rodrigo Ribeiro e Miguel Tiago, passando pelos presidentes das autarquias de Lamego, Ângelo Moura, de Pinhel, Rui Ventura, e de Faro, Rogério Bacalhau, passando pelos Vitor Norte, Joaquim Horta e Alexandre da Silva, pelo modelo Pedro Guedes ou pelo ex-ciclista Cândido Barbosa. Que tiveram à disposição assistência mecânica para as motos a cargo da Motoval e Dunlop, bem como os cuidados dos técnicos do Instituto de Medicina Tradicional. Que, em cada final de etapa, resolviam, ou, pelo menos, tentavam minorar os efeitos de muitas horas de condução, com tratamentos de fisioterapia, osteopatia, acupuntura e massoterapia.

Para que nada falhasse neste desafio redobrado lançado pela Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal, com o 21º Portugal de Lés-a-Lés como o mais próximo de sempre do Oceano Atlântico, passando por serras e lezíria, por falésias e areais a perder de vista, sob o signo da água… e do vento. Bastante vento junto à costa em dias com temperaturas agradáveis, sem calor excessivo, propícias à prática do mototurismo de eleição ao longo de 1225 quilómetros de aventura e descoberta. Homenageando os marinheiros que deram novos mundos ao Mundo e os pescadores que fazem do mar o ‘ganha-pão’, onde se cruzaram surfistas bronzeados e peixeiras de pele tisnada pela inclemência do sol e sal. Uma aventura de intenso aroma a maresia ao longo de Portugal que deixou um oceano de boas memórias.