Surpresas naturais em Felgueiras

No arranque da sua 21ª edição o Portugal Lés-a-Lés percorreu a Rota do Românico.

961

Conhecida como Capital do Calçado, Felgueiras mostrou, durante o Passeio de Abertura do 21º Portugal de Lés-a-Lés, ser muito mais que o somatório de inúmeras unidades fabris num dos mais produtivos pólos industriais do País. Aos mais de 2.100 motociclistas que participam na maratona mototurística organizada pela Federação de Motociclismo de Portugal, revelou ser terra de entusiasmo, dinamismo e empreendedorismo e onde existem belezas naturais, arquitetónicas e históricas que deram outro sabor ao aperitivo para a grande aventura, ao longo de 70 quilómetros em plena Rota do Românico. Mas onde não faltaram pontes e ruínas romanas, igrejas e mosteiros, motos antigas e Ferrari.

Ao longo de meia-dúzia de horas, de tranquilidade e diversão, com nada menos de 11 paragens para visitas, literalmente para todos gostos, revelou-se um passeio com duas fases distintas, começando pela parte industrial e vinhateira, seguindo depois para norte, desfrutando das paisagens mais verdes e oxigenantes na bacia do rio Vizela. Tudo num dia que contou com forte apoio Câmara Municipal de Felgueiras e dos entusiastas sócios do Felroad, jovem motoclube local, onde a caravana visitou alguns dos 58 monumentos referenciados na Rota do Românico como a Igreja de São Vicente de Sousa, datada de 1162 e monumento nacional desde 1977, a Igreja do Salvador de Unhão, de 1165, ou o imponente Mosteiro de Pombeiro, o mais notável mosteiro beneditino no norte do País, fundado em 1059, no cruzamento de duas importantes vias medievais, acolhendo reis e peregrinos ao longo de séculos.

Património histórico a merecer regresso com mais tempo para apreciar, por exemplo, os caixotões que cobrem o altar da Igreja de S. Vicente, datadas de 1694, com 20 pinturas que retratam a vida de S. Vicente, desde o momento em que foi ordenado diácono até à feroz perseguição e tortura pelos soldados romanos, sendo depois de morto, ao descansar numa cama e sem nunca se converter aos deuses pagãos dos romanos, lançado a um pantanal que deveria acelerar a decomposição para evitar que os cristãos recolhessem as suas relíquias. Mas, diz a lenda, que o corpo não se decompôs e foi sempre guardado por um corvo – o mesmo que aparece no brasão de Lisboa, de que S. Vicente é padroeiro – continuando a história, contada por José Augusto Costa, com o lançamento do corpo ao Mediterrâneo pelos muçulmanos que tomaram Valência. Mas o cadáver do santo chegaria a boiar ao Cabo de Sagres, que passaria a chamar-se de S. Vicente, tendo as suas relíquias chegado muito mais tarde a Lisboa, com a nau que transportava o corpo a aportar àquela que é agora a freguesia de S. Vicente de Fora, tornando-se padroeiro da cidade por ordem de D. Afonso Henriques, em 1173, mais de 800 anos depois de ter morrido.

Um museu do outro mundo e a surpresa de andar de moto… dentro de uma fábrica

Tempo ainda para uma paragem mais demorada junto à robusta Igreja de Santa Maria de Airães, do início do século XIII, verdadeiro ex-libris da de Airães cuja Junta de Freguesia proporcionou o primeiro dos Oásis que, ao longo de todo o País, vão ajudar os participantes a mitigar o esforço, a sede e a fome, com paragens estratégicas. Outro Oásis deste Passeio de Abertura foi montado na unidade industrial da Irmalex, maior fabricante nacional de painel sanduiche, coberturas climatizantes para casas, fábricas e pavilhões, com direito a deliciosa sanduíche… comestível – de porco no espeto – a juntar à muita doçaria e à actuação da banda Fulltrack de Famalicão, além de inédita visita à maior fábrica nacional do ramo, em cima da moto, com 10 mil metros quadrados de área e mais de 3 milhões de metros de painel produzidos anualmente! Momento ímpar proporcionado por Júlio Martins, que além de empresário de sucesso é apaixonadissimo motociclista, tal como o foi a visita ao Museu de Motos Antigas de José Pereira, onde muitas, mas mesmo muitas centenas de máquinas restauradas – dizem que é o mais recheado do Mundo – fizeram as delícias de todos, ou a passagem pelo Stand Terror, o maior vendedor de Ferrari em Portugal, com mais de 300 unidades seminovas e impecáveis entregues nos últimos anos.

Mistura entre o profano e o sagrado no evento apoiado pela BMW, BP, Dunlop, NEXX, Touratech e Agência Abreu, que continuaria com a visita à Igreja de Santa Quitéria, santuário que é verdadeira sala de visitas felgueirense, erigido no local onde se crê ter sido enterrada a mártir com o mesmo nome, que, em 135 DC foi mandada executar pelo pai, quando tinha 15 anos, por não aceitar o acordo para o casamento com um cortesão. E onde elementos do Moto Clube do Porto montaram o primeiro controlo de passagem sob o signo do ‘saco azul’, triste estória que colocou Felgueiras nas aberturas de muitos telejornais… De história mais sólida e terrena, as importantes pontes da Veiga, construída no séc. XIV sobre o Rio Sousa ou a ponte romana do Arco, sobre o Rio Vizela, ladeado de belíssimas casas medievais a pedir urgente recuperação. Além da Villa Romana de Sendim, onde simpáticas arqueólogas desvendaram história com mais de 1700 anos daquela que foi uma abastada quinta agrícola. Ou da Quinta da Lixa, onde foi possível saborear um dos mais famosos vinhos verdes de Portugal, com capacidade de engarrafamento de 9000 garrafas por hora (!) em linha de produção que exigiu 1,5 milhões de euros de investimento. Provar o vinho do maior produtor da região, elaborado com castas dos 105 hectares das vinhas locais mas também das catas Avesso, de Resende, e Loureiro, oriunda de vinhedos de Braga, mas sem exageros porque havia que chegar a Felgueiras a tempo da Final da Liga das Nações, onde grandes eram as expectativas que rodeavam o desempenho da Seleção Nacional.

Pão de ló, de Margaride, para adoçar a alma e mãos milagrosas, dos técnicos do IMT, para recuperar o corpo

Momento preparado com o mais emblemático doce regional, o Pão de Ló de Margaride, fabricado segundo receita secreta de Clara Maria e sempre no mesmo local desde 1730. Tempo mesmo para visitar a cozinha, inalterada desde o ano de 1888, altura em que, graças ao empenhado e entusiasmante trabalho de Leonor Rosa da Silva, foi nomeada Fornecedora da Casa Real Portuguesa. Depois, tempo para o futebol, com o resultado que se conhece, e para o concerto com a banda Sons do Minho que animou as hostes até bem depois da meia-noite. E só não durou mais porque era tempo de descansar já que a primeira etapa da longa maratona até Lagos, que levaria a caravana até à Figueira da Foz, sempre pelo litoral no mais costeiro Lés-a-Lés, tinha partida madrugadora, com saída às 6 horas para as primeiras equipas. E passagens por Póvoa de Lanhoso, Vila Verde, Prado, Esposende, Vila do Conde, Matosinhos, Porto, Ria de Aveiro, Murtosa, Aveiro até à Figueira da Foz onde os primeiros chegaram por volta das 17 horas, seguindo-se animada e colorida procissão (como em todos os locais…) com mais de 5 horas de extensão.