Lés a Lés: A maioridade de uma aventura ímpar

437

Com recordista caravana de 1684 participantes em mais de 1500 motos, a 18.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés ligou Albufeira a Vila Pouca de Aguiar, com passagem pelo Luso e Buçaco, em 1000 quilómetros de descoberta.

O maior pelotão de sempre na maior maratona mototurística da Europa garantiu números astronómicos. Ao todo, mais de milhão e meio de quilómetros na travessia de Portugal Continental à moda antiga, iniciado com Passeio de Abertura que mostrou o concelho albufeirense, desde os icónicos locais de diversão noturna das décadas de 1980 ou 09 até à atualidade, como o Kiss ou o Kadoc, passando pelas mais famosas praias, de Olhos de Água à Falésia, da Galé a St.ª Eulália. Pelo meio tempo para molhar os pés no primeiro dos 20 postos do controlo do evento organizado pela Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal, com excelente encenação dos sempre bem-dispostos elementos do Moto Clube de Albufeira.
Tempo também para as cerca de duas centenas de mototuristas espanhóis, de vários franceses, holandeses, polacos, sul-africanos, brasileiros, angolanos, italianos, eslovenos, suíços e de outras nacionalidades provarem cerveja artesanal algarvia com sugestivo nome de Marafada ou os doces regionais da Santa Casa da Misericórdia da Albufeira. O momento histórico do dia centrou-se na visita ao Castelo de Paderne, um “hisn”, pequena fortificação rural fundada pelos almóadas na segunda metade do século XII e o último bastião árabe conquistado em território nacional e que, por isso, mereceu honra de ser um dos sete castelos representados na bandeira nacional.
O pequeno farol da Ponta de Baleeira foi outro dos pontos mostrado com orgulho pelo presidente da Câmara Municipal de Albufeira e motociclista convicto, Carlos Eduardo da Silva e Sousa à longa lista de participantes que inclui nomes bem conhecidos de outras áreas como Cândido Barbosa, o ciclista português com maior número de vitórias, Armindo Araújo, o bicampeão mundial de ralis da categoria Produção, ou o ator Alexandre Martins. E que se fizeram à estrada juntamente com 14 condutoras, o presidente da Câmara Municipal de Sabrosa, José Marques, e o vice-presidente da CM Paredes, Pedro Mendes, bem como os aventureiros que alinharam aos comandos de pequenos ciclomotores de 50 cc de fabrico nacional ou nas eternas Vespa, em aventura bem lusitana, forma ímpar de festejar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.

Prazer de condução ímpar na mais longa ligação do Lés-a-Lés, entre a costa algarvia e a Serra do Buçaco
Com 13 horas de duração, tempo suficiente para ligar Albufeira à cidade francesa de Bordéus, dentro dos limites de velocidade, a primeira etapa do 18.º Portugal de Lés-a-Lés foi pródiga em bons momentos de condução. Muito por culpa da N2, a fabulosa estrada que é a maior do País, ligando Chaves ao centro de Faro ao longo de 738,5 quilómetros de bom piso e muitas curvas.
Jornada madrugadora na mais longa etapa da história da maratona organizada pela Federação de Motociclismo de Portugal, em ligação de Albufeira ao Bussaco Palace Hotel ao longo de 553 quilómetros, dia que surpreendeu os mais de 1650 motociclistas que começaram a partir da Praia dos Pescadores às 5 horas e 30 minutos, ainda noite escura. O anunciado calor que prometia tornar a etapa em verdadeiro inferno acabou por não se concretizar, fintando as previsões meteorológicas, para dar lugar a um tempo fresco, agradável para a prática da modalidade, e até ameaças de chuva. Pingos que não intimidaram ninguém, com os fatos de chuva mantidos bem no fundo das malas, rolando sem preocupações de maior em verdadeiras estradas à Lés-a-Lés. Como o troço da N396 pleno de curvas sensuais, bem à medida dos motociclistas mais maduros, debruado a ciprestes, sobreiros e medronheiros e cujos atributos valeram ser rebatizado de “estrada Sofia Loren”.
Travessia do barrocal algarvio e regresso à N2 com o troço entre S. Brás de Alportel e Almodôvar, classificado em 2003 como a primeira e única Estrada Património. Criada em 1945 como importante espinha dorsal do ainda incipiente sistema rodoviário nacional, a N2 atravessa 11 distritos, 38 concelhos, oito províncias, quatro serras e 11 rios. E serviu para abrir apetite para um café e bolos regionais na sede do Moto Clube de Almodôvar, primeira paragem de dia longo, abastecido à base de cafeína, petiscos ligeiros e muita água. Momentos de paragem que ajudam, também, a recuperar o fôlego, sempre envolvidos por soberbas paisagens como a apreciada das margens da Barragem do Roxo, onde a SW-Motech ajudou a servir mais uma petisquice. Ou por tesouros patrimoniais como a Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Ferreira do Alentejo, ou a imponente Igreja Matriz das Alcáçovas, monumento de tamanha grandeza que quase abafa a centenária povoação…
Pelo meio tempo para mais «brincadeiras» como a protagonizada por elementos de dois dos mais antigos e ativos moto clubes do País, com o Moto Clube do Porto a aconselhar curas de emagrecimento para conseguir passar em estreita viela em Torrão, enquanto os Motards do Ocidente, fazendo alarde da sua antiguidade, disfarçaram-se de homens pré-históricos para controlar a Anta de Pavia. Mas, numa etapa que por força da distância entre Albufeira e o Luso/Bussaco, foi traçada o mais a direito possível, não podiam faltar uns quantos desvios para visitar marcos importantes como o Castelo de Arraiolos, de singular arquitetura de planta elíptica, onde a Honda recebeu todos os motociclistas com deliciosas empadas de frango e fresca salada de fruta. Comida ligeira porque vinham aí os momentos radicais do dia, com a travessia da Ribeira de Sor através de espetacular ponte pedonal de design futurista, mesmo antes da passagem a vau da Ribeira da Margem onde foi possível molhar… as rodas das motos e os pés dos condutores. Desvio pensado pelos diretores do CCRD Ferraria, que fizeram jus à excelente organização da prova do Nacional de Todo-o-Terreno e marcaram um pequeno percurso em terra e areia solta que fez as delícias dos mais experientes nestas coisas do off-road e deixou os nervos em franja aos menos rodados.
Vá lá que a paragem em Gavião ajudou a restabelecer o ritmo cardíaco de uns e deu tempo para contar as estórias de outros, preparando continuação de viagem que teve estreante travessia do Tejo através da Ponte de Alvega, vislumbrando as torres da Central Termo Elétrica que consome carvão e gás natural chegados do porto de Sines. E, sem parar no Picoto da Milriça, ponto obrigatório das primeiras edições do Lés-a-Lés, a caravana passou, ao longo de mais de 4 horas, mesmo ao lado do Centro Geodésico de Portugal rumo à Sertã.
Mas o melhor estava para chegar, com a radical visita à ponte Filipina sobre o rio Zêzere, estreia absoluta no Lés-a-Lés e que sublinha o espírito inicial de mostrar como se percorria o País nos tempos de antanho. A única ligação existente entre Pedrogão Pequeno e Pedrogão Grande, que é como quem diz, entre os distritos de Castelo Branco e Leiria. Entre ancestrais muros de pedra e enormes sobreiros, através de muito íngreme descida empedrada, foram os mais corajosos (por acaso a grande maioria dos participantes!) até à ponte construída em 1610 e que só deixou de ser utlizada em 1970, com a construção da barragem do Cabril. E como depois de uma descida há, quase sempre, uma subida, tempo para transpirar rampa acima até à Ermida da Nossa Senhora dos Milagres onde Oásis Bomcar, concessionário BMW em Leiria, permitia relaxar e refrescar a garganta.
Próximo destino: Góis! Palco de uma das mais agradáveis concentrações nacionais, o espaço junto ao rio Ceira onde está a nova e belíssima sede do Góis Moto Clube, acolheu a última paragem antes da entrada na Mata Nacional do Bussaco, onde apenas houve tempo para vislumbrar pequena porção dos 105 hectares murados. Local do último controlo do dia, feito por soldados napoleónicos mesmo em frente ao Palace Hotel e pouco depois de passagem à porta do Museu Militar. Visita possível graças ao apoio da Fundação Mata do Bussaco, com os sensibilizados motociclistas a retribuírem com importante apoio que ajudará a manutenção de tão importante património botânico. Tempo ainda para apreciar, do lado de fora, o palácio construído a partir de 1885 e que desde 1917 é considerado como um dos mais românticos e belos hotéis do Mundo, antes de descer até ao Luso, com palanque instalado mesmo junto à fonte da não menos famosa água. Local onde a associação de hoteleiros e amigos do Luso, Aqua Cristalina preparou agradável festa para a receção de todos os participantes, portugueses, espanhóis, suíços, italianos, polacos, sul-africanos, eslovenos, brasileiros, angolanos e de outras nacionalidades.

Mototurismo de eleição desde a fonte da água do Luso até à nascente das Pedras Salgadas
Com promessas de uma tirada mais tranquila, com mais e maiores pausas ao longo do dia, a ligação entre o Luso e Vila Pouca de Aguiar, ou melhor junto mesmo à nascente da água das Pedras Salgadas, cumpriu expectativas de ritmo mais mototurístico. Ainda assim, jornada exigente por força de percurso com poucas rectas e muitas, imensas curvas ao longo dos pouco menos de 300 quilómetros que ligam as mais famosas águas termais portuguesas. Em dia que nada nem ninguém meteu água…
´Tempo de rumar mais para interior do mapa nacional, com forte nevoeiro matinal a impedir desfrutar na plenitude da luxuriante serra do Bussaco, conferindo aura de ambiente quase místico, que se acentuaria na lagoa da Barragem da Aguieira. Arranque ao longo da curvilínea estrada N234 que haveria de levar a caravana, ainda meio ensonada, até Mortágua e daí até Santa Comba Dão. Terra «colocada no mapa» pelo seu cidadão mais conhecido, António de Oliveira Salazar, figura incontornável da História de Portugal, com direito a conhecer o local onde nasceu e o sítio onde jaz o estadista.
Animação bem maior em São João de Areias onde os motociclistas foram brindados com espetáculo de qualidade realmente surpreendente. A Khaganiço Orchestra é uma banda que permite aos jovens músicos da Sociedade Filarmónica Fraternidade de S. João de Areias experimentarem novos caminhos, extrapolando a formação musical mais clássica com bem conseguidos arranjos de muitos sucessos. “Hits” portugueses como internacionais, reformulados sempre com recurso aos instrumentos mais habituais numa orquestra filarmónica do que em banda pop ou rock. Pelo caminho, oportunidade para dar os bons-dias aos habitantes acordados por tão madrugadora algazarra que, estremunhados e plenos de curiosidade, não hesitaram em sair da cama em pijama para acenar aos aventureiros que passavam.
Foi preciso chegar às Minas da Urgeiriça, que ainda tem mais de 300 toneladas de urânio armazenadas e um túnel de quatro quilómetros até Nelas, para começar a vislumbrar o sol que haveria de acompanhar a bem disposta turba até ao norte de Portugal. Céu limpo para melhor apreciar a espantosa vila de Santar, uma das que no nosso País possui maior número de solares e casas brasonadas, incluindo o Paço dos Cunhas, galardoado em 2009 como melhor local de enoturismo em solo nacional e onde estava instalado o Oásis da Yamaha. Penalva do Castelo e Satão foram os pontos seguintes no mapa da edição 2016 do Portugal de Lés-a-Lés, com nova e rápida estrada até à surpreendente praia fluvial em Vila Cova à Coelheira. Onde a beleza do rio Covo é engrandecida com muito aprazível espaço envolvente, onde a Antero, concessionário BMW em Vila Nova de Gaia, acolheu os mais de 1650 mototuristas. E, não fosse o diabo tecê-las, contou com a ajuda de «duas» nadadoras salvadoras, no mais puro estilo Bay Watch (ou Marés Vivas, que para o caso vai dar ao mesmo…) que ofereciam a possibilidade de tirar uma fotografia em todo o seu esplendor ao mesmo tempo que colocam mais um furo na tarjeta que atesta o cumprimento da totalidade do percurso da grande maratona.
Mais surpresas em insuspeita aldeia de nome Pendilhe onde os canastros, variante em madeira de construção para guardar o milho e também conhecidos por espigueiros, e o museu propositadamente aberto ao sábado para visitantes motociclistas, anteciparam agradável petisquice de bola de carne e outras joias da culinária regional. Com frondosa vegetação a fazer questionar se ainda seria o mesmo País da Albufeira que viu partir os motards, lá foi o trajeto alternando entre a omnipresente N2 e muitas outras estradas de nome (perdão, número…) menos sonante mas nem por isso menos entusiasmantes. Lazarim, mesmo sem os caretos que por ali animam o Entrudo mas com os amigos do Moto Clube de Prado; Lalim e as suas casas brasonadas; ou Dalvares e a Casa do Paço onde funciona o Museu do Espumante; foram aperitivos para nova visita à Ponte e Torre de Ucanha, fonte de inspiração para a Via Verde, criando as portagens há muitos séculos. Exemplo marcante do peso histórico da região é ainda o mosteiro de Salzedas, localidade que se destaca também pela surpreendente e muitas vezes esquecida judiaria medieval e onde foi possível entrar depois de pedir a chave à senhora do café em frente. Vá lá que os Moto Galos de Barcelos chegaram mais cedo e preparam tudo!
Atravessado o rio Douro na barragem da Régua, também conhecida como de Bagaúste, rumou a caravana em jeito de verdadeiro carrossel motorizado subindo as encostas durienses, com a ajuda do Moto Clube da Régua, em direção à Meca dos Xassos, onde a 23 e 24 de Julho se realizam as “3 Horas de Resistência de 50 cc”. Prova que mostra a enorme paixão que se vive em Fontes pelos desportos motorizados e que atrai dezenas de pilotos e milhares de espectadores, transformando por completo a pequena localidade do concelho de Santa Marta de Penaguião. E já que de corridas se fala, nota para a passagem no circuito de Vila Real, apreciando os últimos retoques, da pintura dos corretores de trajetória à colocação de rails e redes de segurança, a pensar na próxima jornada do Mundial de Carros de Turismo (WTCC) que chega à capital transmontana a 24 de Junho para intenso fim-de-semana de competição.
Ligação que colocou à prova as pequenas mas esforçadas cinquentinhas e até diversas 125 cc, com as íngremes subidas a Fontes e a escalada da serra do Marão pela menos conhecida e mais exigente das encostas. Do novíssimo túnel do Marão que completou a A4, apenas um rápido vislumbre que o Lés-a-Lés é passeio para outras estradas, recordando como se viajava em Portugal no tempo dos nossos avós.
Vias rodoviárias que, com renovado asfalto e uma ou outra alteração de traçado, foram utilizadas na caminhada até Vila Pouca de Aguiar, passando pelo vale de Jales, que já viveu dias de maior animação, quando o complexo mineiro ali laborava a todo o vapor na extração aurífera, e por deliciosa vegetação, dos muitos carvalhos aos pinheiros do Oregon. Vila que já se prepara para a partida da edição de 2017 do Portugal de Lés-a-Lés, faltando apenas confirmar a data exata que, como acontece desde 1999, será algures no mês de Junho. E daí até ao derradeiro palanque, instalado mesmo ao lado da nascente das águas das Pedras Salgadas, foi um saltinho, com direito a passeio para desentorpecer as pernas no Parque Termal, onde o Rei D. Carlos tanto gostava de passar largas temporadas. Agora foram os motociclistas reis e senhores deste espaço, ponto final de aventura intensa, com duas etapas bem diferentes, do longo esticão de Sul ao Centro no primeiro dia, ao mais requintado espírito mototurístico da ligação a Norte. Mas sempre com o entusiasmo que só o Portugal de Lés-a-Lés consegue despertar.

Maior caravana de sempre na 18.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés da animação de Albufeira à tranquilidade de V. Pouca de Aguiar
A maioridade de aventura ímpar
Com recordista caravana de 1684 participantes em mais de 1500 motos, a 18.ª edição do Portugal de Lés-a-Lés ligou Albufeira a Vila Pouca de Aguiar, com passagem pelo Luso e Buçaco, em 1000 quilómetros de descoberta. De novas paisagens e sabores, de novas estradas e monumentos, de novos recantos e amizades. Tudo servido em doses generosas, em duas etapas de configuração bem diferente na chegada à maioridade, mantendo intacta capacidade de reinvenção a cada ano que passa, em aventura que nunca se repete.
O maior pelotão de sempre na maior maratona mototurística da Europa garantiu números astronómicos. Ao todo, mais de milhão e meio de quilómetros na travessia de Portugal Continental à moda antiga, iniciado com Passeio de Abertura que mostrou o concelho albufeirense, desde os icónicos locais de diversão noturna das décadas de 1980 ou 09 até à atualidade, como o Kiss ou o Kadoc, passando pelas mais famosas praias, de Olhos de Água à Falésia, da Galé a St.ª Eulália. Pelo meio tempo para molhar os pés no primeiro dos 20 postos do controlo do evento organizado pela Comissão de Mototurismo da Federação de Motociclismo de Portugal, com excelente encenação dos sempre bem-dispostos elementos do Moto Clube de Albufeira.
Tempo também para as cerca de duas centenas de mototuristas espanhóis, de vários franceses, holandeses, polacos, sul-africanos, brasileiros, angolanos, italianos, eslovenos, suíços e de outras nacionalidades provarem cerveja artesanal algarvia com sugestivo nome de Marafada ou os doces regionais da Santa Casa da Misericórdia da Albufeira. O momento histórico do dia centrou-se na visita ao Castelo de Paderne, um “hisn”, pequena fortificação rural fundada pelos almóadas na segunda metade do século XII e o último bastião árabe conquistado em território nacional e que, por isso, mereceu honra de ser um dos sete castelos representados na bandeira nacional.
O pequeno farol da Ponta de Baleeira foi outro dos pontos mostrado com orgulho pelo presidente da Câmara Municipal de Albufeira e motociclista convicto, Carlos Eduardo da Silva e Sousa à longa lista de participantes que inclui nomes bem conhecidos de outras áreas como Cândido Barbosa, o ciclista português com maior número de vitórias, Armindo Araújo, o bicampeão mundial de ralis da categoria Produção, ou o ator Alexandre Martins. E que se fizeram à estrada juntamente com 14 condutoras, o presidente da Câmara Municipal de Sabrosa, José Marques, e o vice-presidente da CM Paredes, Pedro Mendes, bem como os aventureiros que alinharam aos comandos de pequenos ciclomotores de 50 cc de fabrico nacional ou nas eternas Vespa, em aventura bem lusitana, forma ímpar de festejar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades.
.
Prazer de condução ímpar na mais longa ligação do Lés-a-Lés, entre a costa algarvia e a Serra do Buçaco
Com 13 horas de duração, tempo suficiente para ligar Albufeira à cidade francesa de Bordéus, dentro dos limites de velocidade, a primeira etapa do 18.º Portugal de Lés-a-Lés foi pródiga em bons momentos de condução. Muito por culpa da N2, a fabulosa estrada que é a maior do País, ligando Chaves ao centro de Faro ao longo de 738,5 quilómetros de bom piso e muitas curvas.
Jornada madrugadora na mais longa etapa da história da maratona organizada pela Federação de Motociclismo de Portugal, em ligação de Albufeira ao Bussaco Palace Hotel ao longo de 553 quilómetros, dia que surpreendeu os mais de 1650 motociclistas que começaram a partir da Praia dos Pescadores às 5 horas e 30 minutos, ainda noite escura. O anunciado calor que prometia tornar a etapa em verdadeiro inferno acabou por não se concretizar, fintando as previsões meteorológicas, para dar lugar a um tempo fresco, agradável para a prática da modalidade, e até ameaças de chuva. Pingos que não intimidaram ninguém, com os fatos de chuva mantidos bem no fundo das malas, rolando sem preocupações de maior em verdadeiras estradas à Lés-a-Lés. Como o troço da N396 pleno de curvas sensuais, bem à medida dos motociclistas mais maduros, debruado a ciprestes, sobreiros e medronheiros e cujos atributos valeram ser rebatizado de “estrada Sofia Loren”.
Travessia do barrocal algarvio e regresso à N2 com o troço entre S. Brás de Alportel e Almodôvar, classificado em 2003 como a primeira e única Estrada Património. Criada em 1945 como importante espinha dorsal do ainda incipiente sistema rodoviário nacional, a N2 atravessa 11 distritos, 38 concelhos, oito províncias, quatro serras e 11 rios. E serviu para abrir apetite para um café e bolos regionais na sede do Moto Clube de Almodôvar, primeira paragem de dia longo, abastecido à base de cafeína, petiscos ligeiros e muita água. Momentos de paragem que ajudam, também, a recuperar o fôlego, sempre envolvidos por soberbas paisagens como a apreciada das margens da Barragem do Roxo, onde a SW-Motech ajudou a servir mais uma petisquice. Ou por tesouros patrimoniais como a Igreja Nossa Senhora da Conceição, em Ferreira do Alentejo, ou a imponente Igreja Matriz das Alcáçovas, monumento de tamanha grandeza que quase abafa a centenária povoação…
Pelo meio tempo para mais «brincadeiras» como a protagonizada por elementos de dois dos mais antigos e ativos moto clubes do País, com o Moto Clube do Porto a aconselhar curas de emagrecimento para conseguir passar em estreita viela em Torrão, enquanto os Motards do Ocidente, fazendo alarde da sua antiguidade, disfarçaram-se de homens pré-históricos para controlar a Anta de Pavia. Mas, numa etapa que por força da distância entre Albufeira e o Luso/Bussaco, foi traçada o mais a direito possível, não podiam faltar uns quantos desvios para visitar marcos importantes como o Castelo de Arraiolos, de singular arquitetura de planta elíptica, onde a Honda recebeu todos os motociclistas com deliciosas empadas de frango e fresca salada de fruta. Comida ligeira porque vinham aí os momentos radicais do dia, com a travessia da Ribeira de Sor através de espetacular ponte pedonal de design futurista, mesmo antes da passagem a vau da Ribeira da Margem onde foi possível molhar… as rodas das motos e os pés dos condutores. Desvio pensado pelos diretores do CCRD Ferraria, que fizeram jus à excelente organização da prova do Nacional de Todo-o-Terreno e marcaram um pequeno percurso em terra e areia solta que fez as delícias dos mais experientes nestas coisas do off-road e deixou os nervos em franja aos menos rodados.
Vá lá que a paragem em Gavião ajudou a restabelecer o ritmo cardíaco de uns e deu tempo para contar as estórias de outros, preparando continuação de viagem que teve estreante travessia do Tejo através da Ponte de Alvega, vislumbrando as torres da Central Termo Elétrica que consome carvão e gás natural chegados do porto de Sines. E, sem parar no Picoto da Milriça, ponto obrigatório das primeiras edições do Lés-a-Lés, a caravana passou, ao longo de mais de 4 horas, mesmo ao lado do Centro Geodésico de Portugal rumo à Sertã.
Mas o melhor estava para chegar, com a radical visita à ponte Filipina sobre o rio Zêzere, estreia absoluta no Lés-a-Lés e que sublinha o espírito inicial de mostrar como se percorria o País nos tempos de antanho. A única ligação existente entre Pedrogão Pequeno e Pedrogão Grande, que é como quem diz, entre os distritos de Castelo Branco e Leiria. Entre ancestrais muros de pedra e enormes sobreiros, através de muito íngreme descida empedrada, foram os mais corajosos (por acaso a grande maioria dos participantes!) até à ponte construída em 1610 e que só deixou de ser utlizada em 1970, com a construção da barragem do Cabril. E como depois de uma descida há, quase sempre, uma subida, tempo para transpirar rampa acima até à Ermida da Nossa Senhora dos Milagres onde Oásis Bomcar, concessionário BMW em Leiria, permitia relaxar e refrescar a garganta.
Próximo destino: Góis! Palco de uma das mais agradáveis concentrações nacionais, o espaço junto ao rio Ceira onde está a nova e belíssima sede do Góis Moto Clube, acolheu a última paragem antes da entrada na Mata Nacional do Bussaco, onde apenas houve tempo para vislumbrar pequena porção dos 105 hectares murados. Local do último controlo do dia, feito por soldados napoleónicos mesmo em frente ao Palace Hotel e pouco depois de passagem à porta do Museu Militar. Visita possível graças ao apoio da Fundação Mata do Bussaco, com os sensibilizados motociclistas a retribuírem com importante apoio que ajudará a manutenção de tão importante património botânico. Tempo ainda para apreciar, do lado de fora, o palácio construído a partir de 1885 e que desde 1917 é considerado como um dos mais românticos e belos hotéis do Mundo, antes de descer até ao Luso, com palanque instalado mesmo junto à fonte da não menos famosa água. Local onde a associação de hoteleiros e amigos do Luso, Aqua Cristalina preparou agradável festa para a receção de todos os participantes, portugueses, espanhóis, suíços, italianos, polacos, sul-africanos, eslovenos, brasileiros, angolanos e de outras nacionalidades.

Mototurismo de eleição desde a fonte da água do Luso até à nascente das Pedras Salgadas
Com promessas de uma tirada mais tranquila, com mais e maiores pausas ao longo do dia, a ligação entre o Luso e Vila Pouca de Aguiar, ou melhor junto mesmo à nascente da água das Pedras Salgadas, cumpriu expectativas de ritmo mais mototurístico. Ainda assim, jornada exigente por força de percurso com poucas rectas e muitas, imensas curvas ao longo dos pouco menos de 300 quilómetros que ligam as mais famosas águas termais portuguesas. Em dia que nada nem ninguém meteu água…
Tempo de rumar mais para interior do mapa nacional, com forte nevoeiro matinal a impedir desfrutar na plenitude da luxuriante serra do Bussaco, conferindo aura de ambiente quase místico, que se acentuaria na lagoa da Barragem da Aguieira. Arranque ao longo da curvilínea estrada N234 que haveria de levar a caravana, ainda meio ensonada, até Mortágua e daí até Santa Comba Dão. Terra «colocada no mapa» pelo seu cidadão mais conhecido, António de Oliveira Salazar, figura incontornável da História de Portugal, com direito a conhecer o local onde nasceu e o sítio onde jaz o estadista.
Animação bem maior em São João de Areias onde os motociclistas foram brindados com espetáculo de qualidade realmente surpreendente. A Khaganiço Orchestra é uma banda que permite aos jovens músicos da Sociedade Filarmónica Fraternidade de S. João de Areias experimentarem novos caminhos, extrapolando a formação musical mais clássica com bem conseguidos arranjos de muitos sucessos. “Hits” portugueses como internacionais, reformulados sempre com recurso aos instrumentos mais habituais numa orquestra filarmónica do que em banda pop ou rock. Pelo caminho, oportunidade para dar os bons-dias aos habitantes acordados por tão madrugadora algazarra que, estremunhados e plenos de curiosidade, não hesitaram em sair da cama em pijama para acenar aos aventureiros que passavam.
Foi preciso chegar às Minas da Urgeiriça, que ainda tem mais de 300 toneladas de urânio armazenadas e um túnel de quatro quilómetros até Nelas, para começar a vislumbrar o sol que haveria de acompanhar a bem disposta turba até ao norte de Portugal. Céu limpo para melhor apreciar a espantosa vila de Santar, uma das que no nosso País possui maior número de solares e casas brasonadas, incluindo o Paço dos Cunhas, galardoado em 2009 como melhor local de enoturismo em solo nacional e onde estava instalado o Oásis da Yamaha. Penalva do Castelo e Satão foram os pontos seguintes no mapa da edição 2016 do Portugal de Lés-a-Lés, com nova e rápida estrada até à surpreendente praia fluvial em Vila Cova à Coelheira. Onde a beleza do rio Covo é engrandecida com muito aprazível espaço envolvente, onde a Antero, concessionário BMW em Vila Nova de Gaia, acolheu os mais de 1650 mototuristas. E, não fosse o diabo tecê-las, contou com a ajuda de «duas» nadadoras salvadoras, no mais puro estilo Bay Watch (ou Marés Vivas, que para o caso vai dar ao mesmo…) que ofereciam a possibilidade de tirar uma fotografia em todo o seu esplendor ao mesmo tempo que colocam mais um furo na tarjeta que atesta o cumprimento da totalidade do percurso da grande maratona.
Mais surpresas em insuspeita aldeia de nome Pendilhe onde os canastros, variante em madeira de construção para guardar o milho e também conhecidos por espigueiros, e o museu propositadamente aberto ao sábado para visitantes motociclistas, anteciparam agradável petisquice de bola de carne e outras joias da culinária regional. Com frondosa vegetação a fazer questionar se ainda seria o mesmo País da Albufeira que viu partir os motards, lá foi o trajeto alternando entre a omnipresente N2 e muitas outras estradas de nome (perdão, número…) menos sonante mas nem por isso menos entusiasmantes. Lazarim, mesmo sem os caretos que por ali animam o Entrudo mas com os amigos do Moto Clube de Prado; Lalim e as suas casas brasonadas; ou Dalvares e a Casa do Paço onde funciona o Museu do Espumante; foram aperitivos para nova visita à Ponte e Torre de Ucanha, fonte de inspiração para a Via Verde, criando as portagens há muitos séculos. Exemplo marcante do peso histórico da região é ainda o mosteiro de Salzedas, localidade que se destaca também pela surpreendente e muitas vezes esquecida judiaria medieval e onde foi possível entrar depois de pedir a chave à senhora do café em frente. Vá lá que os Moto Galos de Barcelos chegaram mais cedo e preparam tudo!
Atravessado o rio Douro na barragem da Régua, também conhecida como de Bagaúste, rumou a caravana em jeito de verdadeiro carrossel motorizado subindo as encostas durienses, com a ajuda do Moto Clube da Régua, em direção à Meca dos Xassos, onde a 23 e 24 de Julho se realizam as “3 Horas de Resistência de 50 cc”. Prova que mostra a enorme paixão que se vive em Fontes pelos desportos motorizados e que atrai dezenas de pilotos e milhares de espectadores, transformando por completo a pequena localidade do concelho de Santa Marta de Penaguião. E já que de corridas se fala, nota para a passagem no circuito de Vila Real, apreciando os últimos retoques, da pintura dos corretores de trajetória à colocação de rails e redes de segurança, a pensar na próxima jornada do Mundial de Carros de Turismo (WTCC) que chega à capital transmontana a 24 de Junho para intenso fim-de-semana de competição.
Ligação que colocou à prova as pequenas mas esforçadas cinquentinhas e até diversas 125 cc, com as íngremes subidas a Fontes e a escalada da serra do Marão pela menos conhecida e mais exigente das encostas. Do novíssimo túnel do Marão que completou a A4, apenas um rápido vislumbre que o Lés-a-Lés é passeio para outras estradas, recordando como se viajava em Portugal no tempo dos nossos avós.
Vias rodoviárias que, com renovado asfalto e uma ou outra alteração de traçado, foram utilizadas na caminhada até Vila Pouca de Aguiar, passando pelo vale de Jales, que já viveu dias de maior animação, quando o complexo mineiro ali laborava a todo o vapor na extração aurífera, e por deliciosa vegetação, dos muitos carvalhos aos pinheiros do Oregon. Vila que já se prepara para a partida da edição de 2017 do Portugal de Lés-a-Lés, faltando apenas confirmar a data exata que, como acontece desde 1999, será algures no mês de Junho. E daí até ao derradeiro palanque, instalado mesmo ao lado da nascente das águas das Pedras Salgadas, foi um saltinho, com direito a passeio para desentorpecer as pernas no Parque Termal, onde o Rei D. Carlos tanto gostava de passar largas temporadas. Agora foram os motociclistas reis e senhores deste espaço, ponto final de aventura intensa, com duas etapas bem diferentes, do longo esticão de Sul ao Centro no primeiro dia, ao mais requintado espírito mototurístico da ligação a Norte. Mas sempre com o entusiasmo que só o Portugal de Lés-a-Lés consegue despertar.

Artigo anteriorNacional MX: Diogo Graça fechou Juniores em Vieira do Minho
Próximo artigoNacional e Europeu de MX em Fernão Joanes