Lés-a-Lés: trocar as motos pelo barco!

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Um inovador Passeio de Abertura no 28º Portugal de Lés-a-Lés levou motociclistas à ilha da Culatra, trocando as motos pelo barco.
O Portugal de Lés-a-Lés é um evento dinâmico em que, apesar da manter fidelidade à ideia original atravessando o País de uma ponta à outra desde 1999, vai sempre evoluindo e reinventando-se, apresentando inovações quando parece impossível descobrir mais novidades neste pequeno jardim à beira-mar plantado. Na 28.ª edição do evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal, a grande surpresa foi o Passeio de Abertura que levou centenas de motociclistas à ilha da Culatra, descobrindo o verdadeiro pulmão marinho do Sotavento algarvio.
A ideia parecia demasiado ousada, a roçar a loucura. Afinal tratava-se de levar todos os participantes no Lés-a-Lés à descoberta de uma das ilhas barreira que delimitam a Ria Formosa a sul protegendo a enorme riqueza de biodiversidade marinha, triplicando por um dia a população local que, no último recenseamento contava cerca de 800 almas. E assim, através de uma complexa logística de viagens de e para Faro, apoiado pela Antero Motorcycles, o barco Mira Sado trabalhou mais do que nos melhores dias de verão. “Com uma enchente que só se vê por alturas das Festas de Nossa Senhora dos Navegantes, no primeiro fim de semana de agosto”.
A confirmação foi dada por Geraldo Carmo, o presidente da dinâmica Associação de Moradores da Ilha da Culatra (AMIC) que enalteceu “a vitalização da economia local, nomeadamente da restauração, ao receber um grupo tão grande de pessoas que chegam com um espírito diferente, para divertir-se num animado convívio e numa agradável interação com a população local”.
Uma festa que começava logo à saída do barco, no porto da Culatra, onde os ‘marinheiros’ de ocasião foram recebidos, de forma surpreendente e divertida, pelos pescadores e ostreiros dos Conquistadores de Guimarães. Sócios do divertidos moto clube que, a brincar davam conta da seriedade das atividades mais relevantes no contexto da economia local e que têm a particularidade de “conseguir fixar cada vez mais jovens, mantendo ativas as 60 ou 70 embarcações de pesca existentes na ilha”, como sublinhou Geraldo Carmo. Que explicou ainda que o crescimento do negócio das ostras, “sobretudo para França, para onde é exportada 99% da produção local, garante a viabilidade do negócio”.
Ilha de gente dedicada ao mar que preserva ainda as suas raízes de antigo povoado de pescadores, oferecendo morada a um Algarve autêntico, com uma população composta maioritariamente por pescadores e pelas suas famílias. A ausência de carros na ilha, transporta-nos para uma realidade diferente, permitindo mais facilmente imaginar histórias de antanho daquele núcleo piscatório que remonta a finais do séc. XIX e servia de apoio às campanhas sazonais das armações de atum. Atualmente, destacam-se as embarcações e artes do porto de pesca a nascente do cais de embarque, e os viveiros onde se cultiva ameijoa e ostra, a poente do cais.
Uma visita que foi o ponto alto deste primeiro dia do 28.º Portugal de Lés a Lés sendo a primeira vez na história do evento que os participantes deixaram terra firme e trocaram as motos pela viagem no barco através dos canais da Ria Formosa. Depois foi tempo de curtas caminhadas até aos restaurantes mais próximos, ou de outras mais longas, para chegar ao extenso areal através do caminho pedonal que atravessa toda a aldeia da Culatra até ao mar. Tempo para apreciar a rica flora dos campos dunares e numerosas espécies de aves que convivem nestas paragens calmas, onde as águas são cálidas e tranquilas. Houve mesmo quem arriscasse a uma boa meia dúzia de quilómetros para visitar os 3 núcleos populacionais, saindo da Culatra até Farol, no extremo poente da Ilha, passando por Hangares.
Curioso foi o facto de muitos adeptos dos faróis portugueses nunca terem estado no farol do Cabo de Santa Maria, o mais a sul de Portugal Continental, e que deu o nome à aldeia conhecia como Ilha do Farol. Ou seja, não faltaram aos participantes muitos motivos de interesse para além dos extensos areais onde não havia espaço… para guerras de guarda-sóis.
Além disso, havia que recuperar de um dia que começou cedo para as primeiras equipas, com Verificações Técnicas e Documentais desde as 8.30 h. no Largo de São Francisco, mesmo junto às muralhas que defendiam Vila-Adentro. Depois de confirmados os documentos e o bom estado de luzes, piscas e pneus, havia que passar no palanque de partida, montado no Jardim Manuel Bívar, antes de uma pequena deslocação, de pouco mais de dois quilómetros até ao Cais Comercial. Onde, quais pescadores embarcadoiros, subiam a bordo do barco capitaneado pelo Mestre José Cuíça para uma viagem de 45 minutos. Bem menos que os 45 anos que leva de nem sempre fácil ligação ao mar.
“Na pesca havia sempre hora de sair para o mar, atrás do carapau, linguado, choco ou pata-roxa, mas nunca se sabia a hora de chegada. Por isso, estes últimos sete anos a fazer carreiras entre Olhão e a ilha de Armona e o Farol, ou de Faro para a aldeia da Culatra são bem mais calmos”. E juntamente com mais três tripulantes levou de forma segura e tranquila, 325 passageiros de cada vez, numa viagem onde não faltaram as cantilenas e ditados populares entre os pescadores. Como o que diz: “Cabo da Roca, Senhora da Guia. Quem vai para o mar em terra se avia”
E se muitos, quase todos optaram pela descoberta da ilha da Culatra, das suas gentes e gastronomia, outros houve que dispensaram a viagem. Não por acharem desinteressante, mas pelo simples facto de a terem feito vezes sem conta. Como Miguel Farrajota que optou colocar a conversa em dia com os muitos motociclistas que foi conhecendo ao longo de mais de uma década de presença assídua no Portugal de Lés-a-Lés. “É uma maravilha da natureza que vale a pena conhecer”, não se cansava de publicitar aos que estavam prestes a embarcar e aos que foram mais tarde. Depois de visitar o Museu Marítimo “Almirante Ramalho Ortigão”, sedeado na Capitania do Porto de Faro desde 1962, organizado a partir do acervo do suprimido Museu Industrial Marítimo, ligado à extinta Escola Industrial Pedro Nunes.
Com uma coleção formada a partir de objetos e modelos mandados construir a título particular pelo oficial da Armada, António Artur Baldaque da Silva, foi posteriormente e por proposta do Inspetor Fonseca Benevides, adquirida pelo Governo, tendo a mesma aumentado gradualmente nos anos seguintes.
Espaço museológico sob responsabilidade da autarquia farense, tal como o Museu Municipal, bem no interior do antigo bairro fortificado, num espaço que resultou da adaptação do antigo Convento de Nossa Senhora da Assunção, um edifício do século XVI, com um fabuloso claustro renascentista que fez as delícias de muitos. Incluindo daqueles que não sabiam que o projeto foi galardoado como Melhor Museu Português, em 2005, mas aprenderam que as origens do museu remontam ao final do século XIX, quando foi criada uma coleção arqueológica e lapidária com o nome do Infante D. Henrique. Com o tempo, evoluiu para um museu municipal moderno, preservando atualmente um acerco com mais de 12 000 objetos catalogados ligados à história de Faro e à região do Algarve em geral.
Uma experiência ímpar através do tranquilo claustro, com as suas arcadas de pedra, pequeno jardim e detalhes esculpidos, proporcionada pela Câmara Municipal de Faro, franqueando as portas destes espaços aos motociclistas portugueses, espanhóis, franceses, suíço e luxemburgueses entre outros. Esses mesmo que hoje, quinta-feira, arrancarão a partir das 6 horas para os 425 quilómetros da primeira etapa ligando Faro a Alcochete.
Cerca de 10 horas e meia de condução através da serra algarvia, com passagem pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina até às portas ribatejanas de Alcochete onde os primeiros motociclistas são esperados a partir das 16.30 h. Seguramente cansados, mas fascinados com tanta beleza e diversão que terão dificuldades em escolher, no palanque de chegada, o momento mais marcante do dia.
O Gabinete de Imprensa – Portugal de Lés-a-Lés
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