Lés-a-Lés: calor e emoções na 1ª etapa

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Prometia muito e não desiludiu a primeira etapa do 28º Portugal de Lés-a-Lés, com muitas surpresas e emoções fortes na ligação entre Faro e Alcochete, longa de 425 quilómetros.

Foram mais do que as previstas 10 horas e meia entre a capital algarvia e a Avenida D. Manuel I sobranceira ao estuário do Tejo, num dia com estradas para todos os gostos. Desde a recurvada serra algarvia às retas da lezíria, do pitoresco e pouco conhecido barrocal algarvio aos verdejantes arrozais do Sado, passando pelas praias da Costa Vicentina, numa tirada por vezes bem rebuscada para encontrar alternativas a algumas das estradas aluídas no último inverno.
Para aproveitar ao máximo toda a potencialidade da jornada inaugural da grande maratona mototurística havia que ser madrugador, com o arranque do centro de Faro a partir das 6 horas e passagem rápida pela placa que, em Portugal, assinala a maior distância entre localidades, com os 738,5 km da sempre festejada N2 que leva até Chaves. Apesar de tocar várias vezes na Estrada Património, era diferente o caminho da caravana, saindo por entre laranjais, alfarrobeiras, oliveiras e figueiras, à descoberta de um Algarve bem diferente das turísticas paisagens da orla costeira.

Uma região bem representada por Alte, conhecida como a aldeia mais típica do Algarve, distinta pela arquitetura mediterrânica, com casas caiadas de branco e chaminés rendilhadas que contrastam com o arvoredo e com o rosa e laranja das buganvílias. Aldeia de Alte, que disputou com Monsanto o título da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal em 1938 acabando por ganhar o título de Aldeia Cultural.
E se é certo que ninguém viu a cascata mais imponente do distrito, a famosa Queda do Vigário, e que dizem ser a mais ‘instagramável’ de Portugal, nem as 500 camisolas com que Pedro Pirralho, do café Germano BiciArte, decora a rua para a passagem das provas de ciclismo nas mesmas estradas divertidas e com belas paisagens que a caravana atravessou, outras coisas viu a longa e heterogénea caravana.

Vacas dançantes, burros casadoiros e outros animais bizarros

Viu as já famosas e divertidas ‘vaquinhas’ do Moto Clube de Albufeira mais os seus pastores e ‘pastoras’ e viu gente inquebrantável que luta contra a desertificação do interior. População bem representada pela presidente da Junta de Freguesia, Elisabete Luz, sempre entusiasmada e incansável na tentativa procurar apoios para a fixação dos mais jovens e da natalidade bem como de combater o envelhecimento dos pouco mais de 1700 residentes numa freguesia que conta com 1558 eleitores inscritos. É só fazer as contas…

Vá lá que vão surgindo alguns estrangeiros que se apaixonam perdidamente pela região, sobretudo belgas e franceses, mas também um curioso casal anglo-australiano que, além das várias propriedades que possui no concelho e entre os vários investimentos concretizados, produz várias qualidades de cerveja artesanal. Que, pasme-se!, são batizadas com o nome dos burros da casa, como Clara que dá título comercial à Blonde Ale, Baltazar, a cerveja mais potente, ou Chico Bento, o burro capado, para a cerveja sem álcool. Mais curioso é o facto de estar marcada para dia 19 de junho a ‘festa de noivado’ da Clara e do Baltazar, no preciso dia em que a burra faz anos esperando-se mais burrinhos dentro de pouco mais de ano.

Uma manhã que começou fresca e que viu os participantes arrancarem o mais cedo possível para fugir à canícula que se adivinhava. Temperaturas elevadas que os ciclistas bem conhecem da Volta ao Algarve, utilizando as mesmas estradas para subir ao Alto do Malhão. Um privilégio descobrir por onde passaram Juan Ayuso, Jonas Vingegard, Remco Evenepoel, João Almeida e outros nomes grande do pelotão mundial e pensar que pedalaram por estas encostas e pelas divertidas e paisagísticas estradas da crista da serra. O que eles não fizeram, ao contrário de todos os participantes do Portugal de Lés-a-Lés, foi a travessia a vau da ribeira de Odelouca. Na verdade, um pequeno fio de água, que mal deu para molhar os pneus, ao contrário do que se verificou no início do ano onde só de barco a motor ou, na melhor das hipóteses, de moto de água se conseguiria passar. Também sem complicações foram cumpridos os 900 metros em piso de terra para que o ‘road-book’ alertava e que, afinal, estavam em melhor estado que muitas estradas asfaltadas que o pelotão encontraria um pouco mais tarde.

Mas o pó que o calor ajudava a levantar à passagem de cada moto foi ‘limpo’ no Oásis de São Marcos da Serra com um excelente sumo natural, espremido ali mesmo das laranjas de Silves era acompanhado pelos ‘Esses’, bolos caseiros de forma bem condizente com as estradas da região, e o café de panela, adocicado com casca de limão. Simplesmente delicioso!
Aliás, se algo fica na memória dos participantes deste dia de aventura mototurística, foi o autêntico festival de descobertas gastronómicas proporcionado durante toda a etapa, havendo tempo para provar o Bolo do Tacho de Monchique, também conhecido por Bolo de Milho ou Bolo de Maio. Um doce tradicional feito com café, milho, especiarias e mel, bastante denso, aromático e cheio de sabor, e que é cozido no forno. E que está inscrito no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial segundo anúncio publicado no Diário da República nº 67/2025, Série II de 4 de abril de 2025. Ah, pois é!

‘Olh’á Bola de Berlim’, grita-se na praia

Para digerir tão distinta gulodice nada como as estradas e estradinhas sinuosas rumo a Odemira, o concelho com a maior área em Portugal, entrando no Alentejo pela ribeira de Seixe, através da quietude do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, havendo quem tenha feito um pequeno desvio até ao Cabo Sardão, seguindo o conselho do ‘road-book’ para ver o farol construído ao contrário, com a torre voltada para terra e a casa do faroleiro virada para o Atlântico. Uma raridade técnica e arquitetónica que ficou a dever-se a desentendimentos entre os engenheiros e o construtor deste farol com 15 metros de altura. que entrou em funcionamento em 1915, na ponta mais ocidental da costa alentejana. Não menos curioso foi o avistamento de zebras, Kobus Leche e avestruzes mesmo antes da descida para a praia do Carvalhal.

E ainda a pensar num dos mais bizarros faróis da nossa costa e nos animais exóticos, lá foram os mototuristas através da Zambujeira do Mar até Almograve onde se voltou a ver o Atlântico, debaixo de uma tenda que proporcionou um momento de muito apreciada frescura. Espaço montado pela Honda onde foi possível hidratar e descansar um pouco, enquanto saboreavam as melhores Bolas de Berlim do Mundo. Bem, pelo menos do Lés-a-Lés, esse evento mototurístico onde as surpresas podem estar ao virar de qualquer curva.

‘Pôrra, estás na Abela’

Às portas de Porto Covo, mas sem entrar no lugar imortalizado pela voz lânguida de Rui Veloso, a despedida do litoral encaminhou a trupe para a grande surpresa do dia. Uma autêntica romaria montada em Abela que deixou todos de ‘queixos no chão’, proporcionada pelos habitantes da aldeia do concelho de Santiago do Cacém, liderados pela Guida e Josélia, as esposas do André e Orlando que, entretanto, andavam a divertir-se com os amigos no Lés-a-Lés, pois claro. Mais a sério, a festa foi tal que, sobretudo depois da fabulosa açorda à alentejana e dos doces regionais acompanhados por jovens cantadores e música de baile, muitos ponderaram seriamente não mais sair dali até à noite, quase esquecendo que ainda faltavam bastantes quilómetros até Alcochete.

Para ganhar tempo e evitar ‘voltas e revoltas’, sobretudo devido ao aluimento da estrada em S. Romão do Sado, valeu a ajuda do piloto de todo-o-terreno e Campeão Europeu de Bajas, David Megre, que permitiu a travessia do Sado pela Herdade de Benagasil. Onde não faltaram ‘As meninas da Ribeira do Sado’ e alguma areia. E se às primeiras, resultado da divertida e profícua parceria entre o Moto Clube do Porto e Motards do Ocidente, todos acharam graças, o mesmo não se pode dizer da areia fofa que valeu alguns sustos, mesmo aos mais experientes. Mas houve estreantes que quase se aventuravam, como aconteceu com Sameiro Sá Carneiro que, depois de 20 edições à pendura do marido, Filipe Raposo, ganhou para coragem para encarar a longa maratona aos comandos da Honda CB500F. Para trás, garante, “ficou a descontração e maior possibilidade de apreciar a paisagem que se usufruiu do lugar do passageiro, e aumentou o stress de condução, sempre atenta à estrada, sobretudo para quem só tem a carta de condução há um ano e com pouco mais de mil quilómetros de experiência”. Mas, chegados à areia, foi o próprio marido, preocupado com o bem-estar da esposa (e talvez para evitar possíveis custos de oficina…) que se prontificou a atravessar uma centena de metros de piso mais movediço e algo traiçoeiro.

De coração cheio na Barrosinha

Foi a última ‘exigência’ de um dia longo, mas ainda havia outra paragem, um Oásis num sítio muito especial, a Herdade da Barrosinha que os motociclistas, impulsionados pelo Grupo de Acção Motociclista, ajudaram ao equipar com eletrodomésticos as 17 casas afetadas pelos temporais de janeiro, quando o Sado galgou margens e entrou porta adentro sem pedir licença, destruindo tudo o que encontrou pelo caminho. No Oásis Cam-Am, montado pelo piloto e preparador ‘dakariano’ Mário Franco, muitos ficaram a conhecer, na primeira pessoa, a história de 17 famílias que, na realidade, é apenas uma. Primas e irmãs, tias e sobrinhas, mães e filhas que tiveram direito a um carinho muito especial de todos os participantes nomeadamente Pedro Guedes, que ficou “enternecido com a história de vida destas mulheres. Uma foto e um miminho era o mínimo que podia fazer por estas pessoas” reconheceu o modelo, ator e ‘influencer’ convidado pela Multimoto para descobrir o Lés-a-Lés.

Agora sim, estava ‘ganho o dia’, e faltava apenas descobrir a estreante Alcochete, com a festa do palanque final e jantar servido pelos três motoclubes locais (Grupo Motard de Alcochete, GM do Convento e Os Flamingos Samouco) na ribeirinha Avenida D. Manuel I, rei aqui nascido em 1469. Local de onde parte a maior caravana mototurística europeia rumo a São Pedro do Sul, para uma jornada de 413 quilómetros, com saída desde as 6 horas e mais de 11 horas de viagem através do Ribatejo e charnecas passando pelos granitos do Caramulo até à famosa vila termal. Onde será complicado antecipar se os participantes ficarão mais satisfeitos por ver os rostos sorridentes da equipa de animadoras do palanque “Lynn & Co.” ou as mãos milagrosas dos osteopatas da Osteomotus. Aceitam-se apostas…

O Gabinete de Imprensa – Portugal de Lés-a-Lés

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