Um relógio que não dá horas marcou o ritmo da primeira etapa do Lés-a Lés Classic 2026, entre Lamego e São Pedro do Sul.
Campeão que adora motos e… complicações – Façamos uma adaptação motociclística do velho provérbio e teremos algo como ‘de génio e de piloto, todos temos um pouco’. Já de campeão… nem tanto! Mas quando se cruzam os dois e se junta um apaixonado pelas motos antigas, o resultado é uma etapa fenomenal, a primeira, do Portugal de Lés-a-Lés Classic 2026, num dia em que caravana despertou ao som dos bombos da Associação Cultural Recreativa Desportiva Etnográfica de Cambres com empenhados tocadores entre os 11 e os 56 anos. Mas vamos esclarecer, por ordem, os nomes dos principais protagonistas da ligação entre Lamego e São Pedro do Sul: Amândio José Ribeiro, Manuel João e Damião Cardoso.

Comecemos pelo primeiro, ‘descoberto’ por muitos dos participantes na paragem em Tabuaço, a primeira do dia depois de uma agradável passagem pela N222 junto ao Rio Douro, aproveitando uma manhã soberba para a ‘prática da modalidade’. Um homem genial, muito à frente no seu tempo, e que, apesar de ter ‘apenas’ a 4ª classe, criou, ao longo de 28 anos de dedicação e mais de 16 mil horas investidas, o “exemplar de relojoaria mais completo, complexo, exótico e insólito que se conhece”. Um relógio dividido em quatro partes interligadas e que funcionavam em uníssono, autênticos armários com mais de dois metros de altura e 150 kg de peso, 45 mostradores e que estava programado para funcionar durante 10 mil séculos, em ciclos de 6272 anos! Chama-se RIJOMAX, um acrónimo do nome do fundador que, pouco antes de falecer, aos 90 anos, o vendeu à Câmara Municipal de Tabuaço em 2002, atraindo anualmente milhares de visitantes à Loja Interativa de Turismo. E isto, note-se, sem sequer funcionar!
Tudo porque o segredo parece ter sido perdido quando o relógio, chamemos-lhe assim para simplificar, foi desligado para ser mudado de local. É que, apesar das muitas notas e informações deixadas pelo génio criador, nunca mais deu horas. Vieram os melhores especialistas e os mais renomados relojoeiros de todo o Mundo e nenhum conseguiu descortinar o segredo de tamanha complicação. “Genial”, disseram os suíços. “Vraiment unique”, acrescentaram os franceses. “Fabulous”, remataram os ingleses. Mas colocar o RIJOMAX de novo em funcionamento, isso era outra história.

E assim se quedou, mudo e quedo, o mais espetacular relógio do Mundo, deixando a léguas o condecorado Orloj, o Relógio Astronómico de Praga, ou o Zytglogge, a Torre do Relógio de Berna. Um aparato que, além das horas em Portugal e em todos os países do Mundo, indicava os movimentos do Sol e da Lua, o nascer e o pôr do sol, o dia e a noite (e a duração em horas e minutos de cada um ao longo do ano), os dias da semana, os meses, as estações, os signos, os semestres e trimestres e tanto, mas tanto mais que por aqui ficaríamos horas a falar deste invento único.
O espanto do campeão
Quem ficou rendido a esta complicação foi Manuel João, ex-campeão Nacional de Superbikes, em 1993, 94, 95, 97 e 98, além de resultados de destaque em provas do Mundial de TT, em Vila Real, ou no GP de Macau. Habituado a máquinas mais simples mas muito mais rápidas, regressou à estrada com uma imaculada Kawasaki Z900, “comprada em 1974, quando tinha 23 anos, por 80 contos” (mais de 24 ordenados mínimos à época!). A mesma moto com que, “depois de muitas loucuras, próprias de uma juventude irrequieta” foi o transporte eleito para a viagem de lua de mel, até Paris. “Foram 15 dias de uma viagem estupenda, com o regresso pelo sul de Espanha e com a Paula encostada a uma roda de mota comprada em França a pedido de um amigo”. A esposa, senhora de uma cumplicidade que dura há 47 anos, acenava que sim e recordava com detalhe a epopeia enquanto tiravam mais umas quantas fotografias junto ao lago da barragem de Vilar.
Conhecedor do Portugal de Lés-a-Lés de há longa data, descobriu este ano a versão Classic e ficou “encantado, não só pela possibilidade de apreciar motos clássicas como conversar com amigos de longa data e outros mais recentes”, aproximados pelo gosto por máquinas de outros tempos.
Joias como as que foi vendo na estrada, ao longo de cerca de 150 km da etapa, como também as que apreciou no museu particular de Damião Cardoso. Uma coleção começada há 44 anos, “aos 16 anos de idade ao recupera a minha primeira moto, uma CZ com que o pai de deslocava para namorar a mãe”, recorda o colecionador. Que, sempre simpático e solícito, foi repetindo a história e várias estórias aos entusiasmados visitantes, respondendo a todas as questões com um brilho especial nos olhos.

“Uma coleção iniciada do zero e que conta com cerca de duas centenas de máquinas, a maioria dos anos 1970 e 80, embora haja relíquias da década de 1940 espalhadas ao longo de cinco espaços, “alguns que eram antigas lojas de vacas da casa rural de família, sempre ligada à agricultura”. Mostrando dotes de bom comunicador e um grande entusiasmo, Damião Cardoso cativava os curiosos participantes no Portugal de Lés-a-Lés Classic que pareciam não quererem abandonar um espaço recheado de tantos sonhos.

Tanto mais que já estavam em São Pedro do Sul, término da segunda etapa num ano em que o figurino do evento levado a cabo pela Federação de Motociclismo de Portugal foi alterado, cumprindo mais quilómetros antes do almoço para depois fazer a digestão da magnífica sopa de peixe e da estupenda feijoada do mar confecionada pela equipa organizativa nos claustros do edifício dos Paços do Concelho, instalado desde 1842 no antigo Convento dos Franciscanos, edifício histórico fundado em 1751.
E do largo fronteiro à Câmara partirão para a segunda etapa, numa ligação de 140 km até ao Caramulo, com passagem pelas serras de Arada (com direito a uma impressionante subida ao alto de São Macário e à travessia do Portal do Inferno), mas também da Freita e do Caramulo.
O Gabinete de Imprensa Portugal de Lés-a-Lés
















