Lés-a-Lés Classic: chuva não apaga ânimo

39

Mau tempo não roubou sorrisos no 2º dia do Portugal de Lés-a-Lés Classic, que saiu de São Pedro do Sul para terminar no Caramulo.

Se é verdade que nem sempre as etapas mais curtas são as mais fáceis, não menos verdade é que são os imponderáveis que tornam uma jornada inesquecível. Foram apenas 140 km entre S. Pedro do Sul e o Caramulo, mas pontilhados por subidas exigentes e descidas de respeito, pela passagem nas estreitas ruas empedradas de algumas aldeias e em estradas deixadas em muito mau estado pelas tempestades. Tudo num dia, o segundo do Portugal de Lés-a-Lés Classic, marcado por chuva a 2 Tempos. Ora assim-assim, ora bastante intensa! E sempre com bastante nevoeiro à mistura, que roubou em espetacularidade (no Alto de S. Macário ou no Portal do Inferno) o que devolveu em exigência e prazer de superação.

Uma etapa montanhosa, entre as serras da Arada, Freita e Caramulo que pôs à prova não só os motores das mais respeitáveis senhoras como acima de tudo, os travões. Cenário quase dantesco que não intimidou o experiente Hélder Alves, conhecedor das exigências do Portugal de Lés-a-Lés, com 15 presenças entre a versão de estrada e o Classic, sempre com a Jawa Perak 250 de 1950. “Uma moto que não dá problemas e resiste aos tratamentos mais duros sem queixas. Este ano nem uma vela isolada, nada!” garantia enquanto sacudia a muita água do fato de chuva.

Equipamento que vestiu logo de manhã, à saída de São Pedro do Sul, desfazendo as dúvidas existenciais que se multiplicavam numa manhã ameaçadora, com céu bem escuro e temperaturas muito mais frescas que na véspera. E se houve corajosos que acharam desnecessário vestir o impermeável, logo haveriam de se arrepender, obrigados a parar poucos quilómetros andados, ainda antes de uma pequena mas íngreme subida, em paralelo muito escorregadio. Dificuldade que ajudou a despertar aqueles que ainda estavam meio adormecidos, obrigando a atenção acrescida e alguma perícia para suprir a falta de modernos sistemas eletrónicos como o controlo de tração ou a ajuda ao arranque em subida.

Nada de verdadeiramente problemático embora o elevado peso de algumas ‘damas’ aconselhasse os condutores em dificuldades a pousarem as máquinas no chão com a maior suavidade possível, mesmo que não evitassem uma manete partida ou um espelho estalado. Mais complicadas foram mesmo as primeiras subidas à serra da Arada, testando o fôlego das ‘velhas senhoras’ por entre paisagens marcadas pelos violentos incêndios de 2024 e pelo ‘comboio de tempestades’ no início deste ano. Que também deixaram em muito mau estado a estrada rumo ao Alto de S Macário, com autênticas crateras que obrigavam os motociclistas (e alguns afoitos ciclistas indiferentes à intempérie…) a verdadeiras gincanas para não estragar rodas e pneus. Uma subida infrutífera em termos turísticos já que, de tão cerrado, o nevoeiro não deixava vislumbrar mais do que umas poucas dezenas de metros, escondendo uma paisagem deslumbrante, mas criando um misticismo ímpar.

A paragem obrigatória em Ponte de Telhe

Com subidas que faziam penar os motores das pequenas ‘cinquentinhas’ e descidas que a todos aconselhavam calma com os travões, foi quase imediata a passagem entre as serras da Arada e da Freita. Aliás muitos nem dariam pela passagem entre as duas não fosse a travessia do Portal do Inferno e paragem no Café Rochas, na pequena aldeia de Ponte de Telhe onde umas sandes de presunto e uns cafés serviram para confraternizar e para combater o frio. Temperaturas baixas que exponenciavam o desconforto da chuva e que fizeram questão de acompanhar a caravana durante todo o dia, lado a lado com o nevoeiro, garantindo um espetáculo que só as serranias podem oferecer.

Um show que encantou Daniel e Maria Teresa Fernandez, rendidos à brutalidade das paisagens e impressionados com a lenda do Portal do Inferno e Garra, onde o diabo está à espera de apanhar os mais incautos e onde “o morto matou o vivo”, aludindo a um acidente durante o transporte de uma urna fúnebre por aquele caminho. De olhos arregalados lá continuaram os espanhóis de Santander numa estreia abençoada (de tão molhada que foi…) no evento organizado pela Federação de Motociclismo de Portugal aos comandos das Moto Guzzi V50 e Monza. “Encantados com o percurso, apesar do nevoeiro, e particularmente agradados com os pormenores organizativos” este casal do Moto Club Pistón elogiava a quantidade e qualidade das motos presentes com conhecimento de causa. É que ajudam a organizar, anualmente e desde há muito tempo, dois grandes eventos para motos clássicas. Um para máquinas anteriores a 1995, no primeiro fim de semana de junho, a XXVI Vuelta a Cantabria, e outro, bem maior, para motos fabricadas até 1980, de 20 a 27 de setembro, o Picos Tour & XXXIX Piston Rally, que costuma reunir mais de 600 participantes, oferecendo percursos diferentes todos os dias, entre a Cantábria e as Astúrias.

Tesouros para todos os gostos

Sem medo à chuva, zombando do mau tempo com sorrisos de genuína diversão, a caravana abordou a terceira serra do dia a caminho do destino final: o Caramulo, famoso pelas paisagens e pelo Museu frente ao qual terminaria a etapa, depois de um almoço servido no Caramulo Experience Center, com vistas sobre vários carros em fase de restauro.

Para ajudar à digestão do caldo verde e do saboroso frango com esparguete, nada como a visita ao Museu do Caramulo, criado pelos irmãos Abel e João de Lacerda em 1953, apreciando parte dos 500 objetos de arte que vão dos quadros de Pablo Picasso, Salvador Dali, Amadeo Souza Cardoso ou Maria Helena Vieira da Silva, até esculturas, mobiliário, cerâmica e tapeçarias, colecionados por Abel, a que se juntam os automóveis que apaixonaram o irmão João. Um espaço onde os ‘fórmulas’ de Emerson Fittipaldi rivalizaram em atenção com as pioneiras FN 2 ½ HP e a NSU Twin Roadster, ambas de 1911, e a mais recente, mas não menos icónica, Honda NR750 caracterizada pela exclusividade dos pistões ovais.

Oportunidade ímpar de visitar o Museu do Caramulo, motivo para continuar a conversa sobre motos antigas, e que deixou todos particularmente agradados, quase esquecendo a grande molha que obrigou a trabalhos acrescidos para secar os equipamentos. E assim recuperar a proteção e conforto necessário para a última tirada do Portugal de Lés-a-Lés Classic, com destino a Anadia e ao Museu 2 Rodas, instalado no Centro de Alto Rendimento, em Sangalhos.

O Gabinete de Imprensa Portugal de Lés-a-Lés

Artigo anteriorLés-a-Lés Classic: primeiro dia de estrada