Sucesso à beira-mar plantado

Depois de três dias ao longo da costa o Portugal Lés-a-Lés terminou hoje em Lagos

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Ambiente de enorme festa na chegada a Lagos foi prova evidente do sucesso da 21ª edição do Portugal de Lés-Lés, o mais próximo de sempre do Oceano Atlântico, em aventura de recordação e homenagem a povo de forte pendor marítimo. Dos marinheiros que deram novos mundos ao Mundo aos pescadores, dos surfistas bronzeados às peixeiras de pele tisnada pela inclemência do sol e do sal, de todos se falou ao longo das 71 páginas do ‘road-book’ que indicou o caminho de 1225 quilómetros entre Felgueiras e Lagos, com paragens na Figueira da Foz e Arruda dos Vinhos. Festa gigantesca, com mais de 2100 motociclistas em 1900 motos naquela que reforçou estatuto de maior maratona mototurística da Europa. E, quiçá, do Mundo! Pelo menos a julgar pela crescente adesão internacional a caravana que, em 2019, contou mais de duas centenas de estrangeiros, da vasta comitiva espanhola representando quase 10 por cento do pelotão, até participantes norte-americanos, canadianos, angolanos, ucranianos, alemães, holandeses, moçambicanos, húngaros, suiços, ingleses, franceses, italianos, gregos, croatas e belgas.

Aposta claramente ganha pela Federação de Motociclismo de Portugal que ‘…apesar de saber de antemão as dificuldades acrescidas que a decisão de realizar o Lés-a-Lés em dias da semana iria criar, tanto mais que atravessou zonas densamente povoadas, provou-se que era possível fazê-lo. E com sucesso.’ Para António Manuel Francisco, presidente da Comissão de Mototurismo da FMP, ‘…esta foi mesmo a hipótese mais viável de concretizar um desejo antigo de atravessar o País o mais junto possível à costa. Não foi fácil porque implicava atravessar as duas maiores cidades do País e muitas zonas balneares, mas era uma experiência que a FMP queria oferecer aos participantes.’ Quatro dias de características bem diferenciadas, da verdura do Minho no Passeio de Abertura e no arranque da primeira etapa, à travessia complicada do Grande Porto no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, ao mais recôndito Algarve passando bem perto de algumas das mais belas praias da Costa Alentejana e Vicentina. E sempre com monumentos históricos e outros pontos de interesse a juntar a paisagens de beleza ímpar.

Sob o signo da água. E do vento!

Na terceira etapa, que haveria de levar a caravana até Lagos, 466 quilómetros de extensão obrigaram a saída madrugadora de Arruda dos Vinhos, com sereno serpentear entre casas para fugir ao trânsito das estradas mais usuais. E se as primeiras equipas a partir puderam apreciar o espetáculo do sol que começava a subir no horizonte, gozando vista privilegiada sobre a lezíria e o Tejo, já os que passaram mais tarde pelo pórtico de saída foram bafejados com… temperaturas mais agradáveis face à frescura que se fazia sentir às 5h30 da manhã. Depois do verdadeiro carrossel até Vila Franca de Xira, e da rápida ‘fuga’ através da Ponte Marechal Carmona, seguiram-se as menos interessantes retas em redor do delta do Tejo, aproveitando a Nacional 10 para encurtar a viagem. Tempo, ainda assim, para apreciar outras cores com a volta ao estuário através de campos, rumo a Santo Estevão onde nem um original sinal de trânsito, com placa indicando o caminho do Lés-a-Lés montado sobre uma antiga motorizada de origem nacional, impediu o engano de muitos apressados. Sobretudo daqueles que não sabem desfrutar a grande aventura com serenidade, ou dos que… ainda estavam a dormir. Mas todos acabaram por encontrar o espaço onde o MC Almansor e o rancho folclórico de Benavente montaram espectacular Oásis e onde todos demoraram bem mais do que os 15 minutos previstos e aconselhados no ‘road-book’. E todos desfrutaram de uma rápida e divertida iniciação à arte do toureio, abrindo o apetite para verdadeiro festival gastronómico onde nem faltou completo cardápio de doçaria caseira, feita pelas senhoras da terra, felizes de acolher a caravana. E que bem se esteve em St. Estevão!

Depois as entediantes retas da N10 e IC1, mal necessário para mais rapidamente chegar à beira-mar, entrecortadas pela magnificência da paisagem apreciada desde o castelo de Alcácer do Sal, rolando ao longo da muralha com paragem junto ao rio para original prova de azeite. Mais retas rumo à Comporta, passando junto ao Parque Natural do Estuário do Sado, com paragem no Cais Palafítico. Onde o divertido controlo montado pelo Moto Clube do Porto assentava em bem apicantados motivos de pesca do berbigão. Ou não estivéssemos em terra de pescadores.
Mais vias rápidas até Sines porque Porto Covo e a Ilha do Pessegueiro estavam à espera, mas não sem antes visitar o castelo acedendo a simpático convite da autarquia. Que até disponibilizou o espaço interior da fortaleza para aparcar as motos! Já em Porto Covo, obrigatório molhar os pés para merecer o furo na tarjeta que garantia a passagem no posto do Moto Clube do Coimbra. Praia das Furnas ou o Cabo Sardão foram os pontos seguintes no mapa desta travessia costeira, antes da paragem na Zambujeira do Mar. A mais famosa terra dos festivais de verão tornou-se no palco mais desejado da hora de almoço graças à feliz associação entre a Longitude 009 e o chef Chakall, com propostas gourmet, de requintada cozinha, no Oasis Touratech. Que, diga-se, muitos comentários de regozijo motivaram numa altura em que se cumpriam os últimos quilómetros no Alentejo.

Entrada no Algarve com visita ‘obrigatória’ a Odeceixe onde a temperatura já mais elevada, convidava a um mergulho, até porque as ondas de mar muito ‘flat’ apesar do vento intenso que teimava em não largar a caravana, impedia as mais radicais manobras surfistas. E num final com intenso sabor a Lés-a-Lés, de estradinhas desertas, estreitas e cheias de curvinhas, rodeadas da vegetação rasteira que consegue sobreviver ao vento agreste que as fustiga, tempo até para algumas passagens em terra e areia. Claro que, pelo caminho, não podia perder-se tamanha oportunidade de regressar ao canto mais sudoeste da Europa, com controlo final no farol da Ponta da Piedade, onde até um renascido Gil Eanes se associou ao MC Lagos em tão importante tarefa. Afinal, era o último dos 18 furos efectuados na tarjeta de plástico que atesta o cumprimento, na íntegra, do percurso que levou heterogénea e colorida caravana desde Felgueiras até Lagos. De onde, já se pode adiantar, partirá a edição de 2020…